Novo Lobo Solitário #1

5.0

NOTA DO AUTOR

“O rio desemboca no mar e torna-se onda. Ondas grandes, ondas menores. Elas vêm e vão, vão e vêm. Muitas e muitas vezes, sem cessar. A vida do ser humano também é como as ondas. Ele nasce, vive, morre e renasce. Em breve, o corpo de seu pai se tornará apenas um mudo cadáver. Mas a alma que há em mim é como as ondas, jamais deixará de existir. Quando chegar a hora, minha alma partirá ondulando pela correnteza, para desembocar na outra margem da vida, a fim de reencarnar. Meu corpo pode perecer, mas minha alma é indestrutível. Assim como a sua. Nossas almas são eternas, indestrutíveis para sempre. Não se abale caso veja o corpo de seu pai ao chão. Não recue mesmo que minha pele venha a rasgar, ou meu sangue jorrar. Não tema ao ver meus olhos cerrados ou minha boca calada. Na outra encarnação, eu continuarei a ser o seu pai e você ainda será o meu filho. Nós somos e continuaremos inseparáveis, eternamente, pai e filho.”

***

Aviso: Antes de tudo, todo e qualquer registro aqui pode ser interpretado como spoiler para quem porventura desconhece o desfecho do Lobo Solitário original, publicado em abril de 2007 pela Panini, e que acaba de iniciar a republicação dessa série. Então, siga por sua conta e risco.

Outro dado importante de partida, pelo menos para este resenhista, é que o meifumadou¹ trilhado por Itto Ogami e o filho Daigoro, em vinte e oito volumes antológicos, se tornou sua história em quadrinhos favorita – sem atribuir qualquer distinção se mangá ou não. Isso mesmo e, sim, acima de unanimidades como Sandman, Watchmen e outros nomes ocidentais fáceis. Logo, o anúncio de que o Novo Lobo Solitário, continuação direta desse petardo dos mangakás Kazuo Koike e Goseki Kojima, estava às vias de ser lançado, me fez tremer nas bases e, claro, temer pelo caminho que a narrativa tomaria a partir dali. Afinal, Lobo Solitário #28 entregava um final emblemático e, de certa forma, em aberto; mas, ainda assim, um fecho bastante digno para lobo e filhote. Chama atenção, também, o hiato entre as duas publicações no Japão: o primeiro Lobo foi concluído em 1976 e o segundo (de onze volumes) teve início em 2007. Três décadas!

¹ Caminho errante do mundo dos mortos.

Quer dizer, normalmente, o gongo de alerta soaria em alto e bom som para o fã do enredo clássico, temendo um declínio factível no nível das histórias de outrora. Razão pela qual evocaria os dois fiascos nos sucedâneos do Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Não ajuda também a informação de que essa continuação não foi ilustrada por Kojima, visto que o mesmo falecera anos antes, em 2000. Felizmente, não é o caso em Novo Lobo Solitário. E logo nas primeiras páginas, uma constatação: Daigoro não é o único órfão ali, todos nós, leitores veteranos, temos agora que superar uma dor que ficou latente naquele vigésimo oitavo volume e, provavelmente, até esquecida tamanho foi esse interregno de dez anos. Itto Ogami não está mais entre nós e Daigoro terá que seguir sem ele – e nós também.

A premissa subsequente se subdivide em três frentes:

Em primeiro lugar, a orfandade de Daigoro é interrompida com sua adoção por Shigekata Togo, espadachim vassalo do clã Shimazu, senhor do feudo de Satsuma. Segundo o glossário da edição, ele é creditado pela criação do estilo Jigen-ryu. O momento em que o pai acidental decide acolher o rebento de Itto Ogami se dá quando aquele percebe que o falecido portava uma Dotanuki² idêntica a sua, ocasião que lhe desperta um senso de destino e identificação com aquela criança atípica.

² Espada de guerra raríssima que, em japonês, significa “atravessar corpos estendidos no chão”.

Segundo, é dito que o Shogunato se amparava por um tripé extraoficial, no qual Itto Ogami fazia às vezes de Executor, enquanto seu nêmese, Retsudo Yagyu, se ocupava da liderança entre os Assassinos sancionados pelo Governo. Nesse vácuo de poder, resta agora os Espiões, liderados por Izu-No-Kami, alcunha de Nobutsuna Matsudaira, que vale dizer, não vivem um bom momento, haja vista que os recentes escândalos denunciados na rixa entre Executor (Itto) e Assassino (Retsudo) tende a absorvê-los pela máquina estatal, extinguindo-os, por assim dizer.

E em terceiro, sabemos que Itto Ogami emprestava sua espada pela expressiva quantia de 500 Ryos e dada a quantidade de corpos que ficaram no caminho, subentende-se que uma pequena fortuna ficara de legado para o seu filho. Os espiões deduzem isso e veem nessa soma uma saída para seu declínio institucional. E eis que surge o possível McGuffin da série: onde Itto escondeu essa dinheirama toda?

Por fim, preciso dizer que a Panini fez uma jogada e tanto ao optar por publicar Novo Lobo Solitário em paralelo ao relançamento da coleção original, instilando os consumidores de 2004/2007 a padronizarem as duas coleções em curso. A edição debute de Novo Lobo Solitário ainda reserva nas páginas finais o glossário de praxe, a reprodução de uma reportagem veiculada na revista Post (de 2003), discutindo o desfecho da primeira série, e o melhor de tudo, um posfácio de encher os olhos assinado por Koike, elencando as razões que o levaram a redigir essa continuação, bem como um tocante testemunho sobre como ele lidou com a perda do amigo Kojima e o que fez para honrar seu legado – a partir do traço mimético de Hideki Mori³.

³ Se não fosse mencionado, eu não me julgaria apto a distinguir quem é quem numa comparação direta entre original e sequência.

***

Que venham agora os demais (dez) volumes. Sinto que o Shigekata aí em cima estava falando comigo.
  

Roteiro: Kazuo Koike

Arte: Hideki Mori

Editor: Beth Kodama

Capa: Hideki Mori

Publicação original: New Lone Wolf and Cub #1

No Brasil: Abril de 2017

Nota dos editores:  5.0

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