Akira #1

4.0

NOTA DO AUTOR

Há quatro formas de se ler o Akira que acaba de ser lançado pela JBC: (1) com a bagagem da primeira versão publicada nos anos 1990 pela Editora Globo; (2) esforçando-se para ignorá-la, mesmo que, em algum momento, tenha havido contato com aquela série; (3) comparando-o ao filme animado oitentista; e (4) 100% isento, sem quaisquer contaminações prévias – um público leitor que deve orbitar na casa do 0,01%. Caso se identifique com os métodos 2 a 4, sendo bem franco, lamento, mas essa não é a resenha mais adequada ao vosso paladar.

Verdade seja dita, as 357 páginas desse tomo inicial (de seis) de Akira podem ser lidas em menos de hora, nem tanto pela adrenalina injetada nas internas, e sim pela notória economia de texto de Katsuhiro Otomo. Por outro lado, o apetite voraz não inibe o incômodo downgrade sensorial que sobrevém ao guardar o luxuoso volume na estante. O nome desse elefante branco colorido é Steve Oliff – e se queres saber mais a respeito desse sujeito e dos bastidores da versão ocidental de Akira, sugiro ouvir o Confins do Universo que trata especificamente disso.

Claro que o Akira original veio à luz em preto & branco e tenho completa ciência que a presente edição chegou às nossas mãos sem quaisquer faculdades por parte do editorial nacional; contudo, essas informações não conseguem obstar a beleza das imagens residuais de outrora:

É curioso que o excesso de zelo nipônico, creditado na conta do autor, numa busca por padronização tirânica, vai na contramão das necessidades dos próprios leitores e até do mercado, que de imparcial já tem pouco e não se vê rogado nas pretensões da Kodansha (editora original). Ao limitar seu espectro de opções, o licenciante em comento não enxerga que a diversidade de interpretações ou versões da obra original só age em seu próprio favor, engrandecendo-a aos olhos do público, e nisso chamo à tona o infalível e inoxidável exemplo de Sandman. Por quê? Ora, já paraste para pensar quantos formatos existem da saga de Morfeu? De memória, posso citar quatro versões que atualmente são comercializadas no exterior: (1) os dez encadernados cartonados [TPBs]; (2) cinco¹ edições Absolute, fonte das brasileiras; (3) quatro tomos anotados em preto & branco; e (4) dois fascículos robustos [Omnibus].

¹ O 5º segue inédito por essas bandas, uma vez que a Panini fragmentou seu conteúdo em encadernados capa dura individuais.

Fosse-me dada opção, teria todas elas, inclusive as 75 edições solo. E esse deveria ser também o caso de Akira, um clássico tão hypado pela inacessibilidade transitória de possuí-lo que, não raro, chega-se a cifras proibitivas. Isto é, Akira é o tipo de quadrinho que deveria estar disponível para todos os bolsos e gostos. É bem verdade que as excentricidades² do copyright não chegam a sabotar a história, que vamos combinar, é o que importa no final de tudo, só que, no nível pessoal, reitero a analogia, mencionando o choque de realidades entre o Tintim da Cia. das Letras/Globo Livros Graphics e, por último…

² A impossibilidade de traduzir [do japonês/inglês] as orelhas da sobrecapa é só uma delas.

…as injustiçadas cores de John Higgins.

Entendo perfeitamente o lado do editorial da JBC quando afirmam que ou era isso ou nada, mas, infelizmente, o caso de Akira entra como numa luva no adágio do “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Os meus viram a paleta de cores de Steve Oliff e meu coração pesa por isso.

***

Akira #1/JBC compila as primeiras seis edições (de 38) da série clássica/Globo, e tem seu lugar em 1982, com a deflagração de uma (suposta) devastadora bomba em Kanto/Japão, que desencadeia a 3ª Guerra Mundial; e, posteriormente, em 2019, nos preparativos para os Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio, que por sinal é uma coincidência que dará azo a muitos memes nerds. A narrativa futurista dá voz a Kaneda, líder de uma gangue de motoqueiros adolescentes, que num racha habitual cruza o caminho com um estranho garoto envelhecido (à moda Benjamin Button) em fuga. Do encontro, Tetsuo, amigo próximo de Kaneda, se acidenta e é socorrido pelo exército, passando dias sob a custódia hospitalar daquelas autoridades.

Nesse ínterim, somos apresentados ao que parece ser uma conspiração governamental envolvendo um seleto grupo de crianças paranormais, do qual fazia parte o fugitivo acima, e se descobre que Tetsuo tem tanto ou mais poder quanto aqueles garotos. Fato é que os crescentes poderes psíquicos do motociclista estão transformando-o num verdadeiro sádico, colocando em risco tanto seus antigos amigos quanto o status quo, mantido pelo Governo ao silenciar a ameaça do misterioso Akira, enterrado a centenas de metros do epicentro da explosão em 1982.

Enredo e arte de Akira envelheceram tão bem que, mesmo hoje, saltam aos olhos as composições de Otomo, sobretudo na ação. Akira é cinética pura, quadrinho porradeiro como poucos, que confere noções apuradas de destruição e deslocamento a um poder tão popular no gênero super-heroico como o telecinético.

***

De pena que, dados os caprichos do licenciante e o ingrato cliffhanger que encerra a edição debute, se achas mesmo que tão cedo o segundo volume aportará em Terra Brasilis…
  

Roteiro: Katsuhiro Otomo.

Arte: Katsuhiro Otomo.

Editor: Cassius Medauar.

Capa: Katsuhiro Otomo.

Publicação original: Akira #1 (junho de 2016).

No Brasil: junho de 2017.

Nota dos editores:  4.3

Nota dos leitores:  2.1

 

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4 comentários sobre “Akira #1

  1. Gostei muito da edição, tanto é que passei ela pra frente da pilha de leitura. Quanto à versão colorida, sou sempre a favor da publicação da obra em seu formato original, como foi concebida pelo autor.

    No caso de Akira, seria interessante uma versão com leitura oriental E colorida, já que a colorização da versão americana foi supervisionada pelo Otomo na época.

    Espero que a segunda edição saia na CCXP 2017

    Minha nota: 4.5

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