100 Anos de Jack Kirby: Marvel Treasury Special – 2001: A Space Odyssey

4.8

NOTA DO AUTOR

O debate é antigo e talvez você esteja cansado dele: adaptações para outras mídias. No automático, geralmente vamos ao cinema determinados a sair de lá achando que “o livro é melhor”. Ou o gibi. Quase sempre é, independente de nossa vontade inicial. Nesse sentido, 2001: Uma Odisseia no Espaço pode ser um caso dos mais atípicos. A começar pelo fato do livro ser, na verdade, “produto” do filme (ainda que tenha sido escrito durante as filmagens).

Além disso, o livro não é apenas uma mera adaptação do filme. Nele, Arthur C. Clarke desenvolveu (ou explicou, vá lá) vários dos conceitos e passagens mostradas no icônico filme do gênio Stanley Kubrick. Assim, o livro seria uma “versão estendida” do filme. Esse é outro debate inócuo: o livro possui muito mais “espaço” para tal desenvolvimento, embora não fosse o desejo do diretor (e de seu co-roteirista, o mesmo Clarke) dar tanta explicação ao longo de duas horas e meia de película. O que importa é que ambas as mídias, filme e livro, se complementam numa simbiose perfeita, como se fossem um único produto. Veja o filme, leia o livro e vice-versa.

É no meio disso que, em 1976, oito anos após o lançamento de 2001 em ambos os formatos, chegou às bancas a revista Marvel Treasury Special – 2001: A Space Odyssey. Em meados dos anos 1970, Jack Kirby acabara de voltar à editora que ajudou a fundar. Naquele momento, o Rei só retornou com a garantia que escreveria e editaria aqueles gibis que desejava desenhar, status semelhante ao que tinha na DC Comics. Incansável e rápido na prancheta, uma verdadeira usina de ideias, Kirby desandou a criar conceitos, personagens e história para a Marvel. Nesse seu retorno, Os Eternos talvez seja o trabalho mais marcante.

Perdido (e infelizmente esquecido) em meio a tantas criações, temos 2001: A Space Odyssey. Inicialmente, Kirby fez essa edição especial de 80 páginas e posteriormente criou uma pequena série em dez edições mensais (de dezembro de 1976 a setembro de 1977), na qual aprofundou os conceitos do filme, indo mais além e contando uma história diferente, sem fugir do direcionamento estabelecido por Kubrick e Clarke. É nessa série que aparece pela primeira vez o Mister Machine, posteriormente conhecido como Machine Man (Homem-Máquina no Brasil) e que ganharia uma revista própria na Marvel.

Em Marvel Treasury Special, Kirby adaptou o filme para os quadrinhos, inserindo algumas ligeiras modificações, sempre utilizando o livro de Clarke como referências. Inseriu recordatórios que esmiúçam mais alguns personagens (a título de curiosidade, há quase 90 minutos de silêncio no filme), detalhou certas passagens (sobretudo na pré-História e na viagem até Júpiter) e, talvez como ponto baixo, não explorou com mais vigor o computador HAL 9000, que aqui tem uma participação um pouco mais modesta, ainda que marcante. O monolito negro, outro personagem importantíssimo, não causa o mesmo impacto nessa adaptação. Simplesmente ele funcionou melhor na tela.

Os quatro atos de 2001 estão muito bem representados e equilibrados no gibi. Na cena passada durante a pré-História, por exemplo, Kirby foi bem fiel (ainda que tenha resumido por questões óbvias de espaço) ao texto de Clarke no livro. Mas aquela bela cena do filme, quando o hominídeo sacode um osso para o céu e corta para uma nave no espaço (o bem conhecido “maior salto temporal do cinema”) ficou perfeitamente reproduzida em uma página inteira.

Para mim, o gibi possui dois grandes momentos. O primeiro é quando o doutor Heywood Floyd chega até à Lua para analisar o estranho monolito negro fincado no satélite. A ansiedade do personagem até a chegada ao local, os diálogos inspiradíssimos, os longos recordatórios, as expressões faciais de surpresa e temor: tudo deu mais visibilidade à cena. Nesse momento, você está imerso na história. O segundo momento deve ser o preferido dos fãs: a interação de Dave Bowman, Frank Poole e HAL no interior da nave. Nessa passagem, Kirby demonstrou porque é chamado de Rei: os visuais interno e externo da nave são um deleite, os trajes dos astronautas ficaram perfeitos, os diálogos (insisto nisso porque é objeto de muitas críticas ao trabalho solo de Kirby), a hora de desligar HAL perfeitamente reproduzida. Enfim, toda a construção da cena é de um primor único. Kirby caprichou e não economizou lápis.

Na parte final, a colorização de Marie Severin fez toda a diferença para acompanhar a grandiosidade do momento (que ficou bem mais “acessível” do que no filme). É uma explosão de luz e cores, fechando com chave de ouro esse grande momento da nona arte, completamente desconhecido e ignorado. Não é sempre que você tem acesso a uma história fantástica, contada em três mídias diferentes por três gênios indiscutíveis de cada uma delas. Atualizando o que disse acima: veja o filme, leia o livro e devore o gibi.

 

  

Roteiro: Jack Kirby

Arte: Jack Kirby, Frank Giacoia (arte-final) e Marie Severin (cores)

Editor: Jack Kirby

Capa: Jack Kirby

Publicação original: Marvel Treasury Special - 2001: A Space Odyssey (janeiro de 1976)

No Brasil: Inédito no Brasil

Nota dos editores:  3.1

Nota dos leitores:  3.8


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