Novo Super-Man – Volume 1

3.7

NOTA DO AUTOR

 

Desta vez, vou começar com as informações mais básicas. Este volume do Novo Super-Man segue o padrão dos encadernados do Renascimento que a Panini vem lançando (Aquaman, Flash e Arqueiro Verde foram os primeiros): capa cartão, papel gostoso, 140 páginas mais ou menos e custando R$ 21,90. A diferença é que esse gibi não teve aquele especial antes de iniciar (afinal, trata-se de um personagem novo…); por isso, temos aqui as seis primeiras edições, compilando o primeiro arco, Fabricado na China.

Agora, os autores. O sino-americano Gene Luen Yang, que escreve as histórias, você já deve ter ouvido falar. Egresso do mundo da computação, Yang fez alguns trabalhos bem pouco conhecidos e bastante espaçados no tempo, até que, em 2006, lançou American Born Chinese pela First Second Books. Esse material saiu aqui, no Brasil, em 2009, pelo selo Quadrinhos na Cia, com o título O Chinês Americano. Essa obra figurou em várias listas de melhores do ano e abocanhou um Eisner (Melhor Álbum). Nisso, ele lançou outros trabalhos, participou de antologias e, em 2015, a DC Comics o chamou para escrever ninguém menos que o Superman, com arte de ninguém menos que John Romita Jr. e arte-final de ninguém menos que Klaus Janson. Sua fase no título foi publicado pela Panini entre abril de 2016 e março desse ano. Lembrou?

A arte, por seu turno, está a cargo do desconhecido (ao menos pra mim) Viktor Bogdanovic, desenhista que está na DC desde os fins de 2014 (recentemente, assinou um contrato de exclusividade). Pela editora, ele fez um tie-in de Batman: Arkham Knight (que, creio, não saiu no Brasil) e o novo Esquadrão Suicida (publicado aqui durante todo o segundo semestre de 2016). Como não li (e nem lerei) essa mensal do Esquadrão, tudo que sei dele é absolutamente nada – exceto pelo fato de confundi-lo com um “antigo” desenhista do Super-Homem, o inesquecível (para o bem e para o mal) Jon Bogdanove, devido aos nomes. O desconhecimento logo se torna algo fútil, pois o cara desenha muito bem. Se não veio ao mundo revolucionar a nona arte, ao menos entrega desenhos competentes, com boa narrativa, respeito mínimo aos aspectos chineses (seja nas expressões faciais – não espere cabelos espetados coloridos e olhos grandes, caso você igualmente leia mangá -, seja no figurino e cenários) e em dia com os prazos.

Certo, chega de conversa mole: e a história? Logo de cara, somos apresentados a Kong Kenan (ou Kenan Kong, se você não for afeito a preciosismos), o nosso herói. Yang cria a primeira empatia nesse momento, livrando-se dos grandes clichês, a saber:

  • Kenan não é um nerd que sofre bullying (nas três primeiras páginas, ele tá perseguindo um colega de escola, justamente para judiar do rapaz);
  • não é um órfão psicótico que jurou vingança a todos os bandidos de Hong Kong (mas ele é órfão de mãe);
  • não construiu um traje, nem fez experimentos malucos que modificaram sua estrutura molecular;
  • não veio de outro planeta;
  • não faz musculação, artes marciais (opa!) ou le parkour.

Na real, Kenan é um pouco gordinho, folgadíssimo, meio preguiçoso e teimoso como uma mula. A única coisa boa em ser um herói, pra ele, é ficar famoso e popular. Tanto é que, ao fim da segunda edição, revela sua identidade secreta pra toda cidade.

Ah, imagino que você esteja até agora querendo saber como diabo ele virou o novo Super-Man, né? Foi mal, esqueci dessa parte. Não precisa ter lido, mas a semente do processo pode ser vista naquele especial publicado aqui em março, intitulado Superman: Fim dos Dias. Basicamente, é a revista que deu fim ao Super-Homem dos Novos 52. Em Fim dos Dias conhecemos a cientista que criou um clone do kryptoniano (eu sei, eu sei) que não deu muito certo. Achando pouco, ela resolve tentar mais uma vez. Acredita que pode replicar os poderes de Kal-El em um humano comum e, como você descobrirá, esse humano é o Kenan. Obviamente que ele fica empolgadíssimo com a oportunidade de ser um super-herói e nem se importa muito como isso será possível.

Em seguida, conhecemos o Bat-Man e a Mulher-Maravilha da China. Sim, você está lendo certo. Caso não tenha lido esse volume, fique sabendo que essa é uma sacada arretada do Yang, pois a história tem um clima bem leve e divertido. Por exemplo, a rixa entre Kenan e Baixi (o nome do Bat-Man) é engraçadíssima (Kenan só o chama de balofo, por razões óbvias) e rola uma química massa entre o protagonista e a Deilan (a Mulher-Maravilha), só que longe de ser um romancezinho. Na verdade, metade do combustível do gibi é justamente a interação do trio: Baixi encarna o espírito do Morcego, Deilan tem seus mistérios e motivações e Kenan começa a perceber que ser um super-herói não é só gozação e fama. Yang vai construindo e sedimentando a amizade entre eles, alterando momentos de tensão, solidariedade e bom humor.

Isso porque nem falei dos vilões (aparece até um Starro), do pai do Kenan, dos outros coadjuvantes e, claro, da outra metade do combustível: as idiossincrasias chinesas (ou, no caso, de Hong Kong). Yang trabalha muito bem essa parte, deixando sempre claro que não estamos em Metrópolis ou Nova York e como isso faz diferença. A começar pelo fato de que a Liga da Justiça da China é um grupo ligado diretamente ao Ministério da Supremacia. Afinal, o governo chinês controla tudo, ainda que Hong Kong tenha lá suas “regalias”. Nada disso fica panfletário ou cansativamente explicativo. Gene Luen Yang insere e discute todos esses elementos de forma natural e com alguma leveza, sem esquecer de por a história para andar. Gibis de heróis com essa pegada e divertido como Novo Super-Man são raros hoje em dia. Não deixe escapar ou guarde para sempre seus formatinhos do Superboy havaiano (eu guardo os meus).

 

  

Roteiro: Gene Luen Yang

Arte: Viktor Bogdanovic (desenho) e Richard Friend (arte-final)

Editor: Eddie Berganza

Capa: Viktor Bogdanovic e Kelsey Shannon

Publicação original: New Super-Man #1-6 (setembro de 2016 a fevereiro de 2017)

No Brasil: agosto de 2017

Nota dos editores:  3.9


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