Superman: Entre a Foice e o Martelo

4.5

NOTA DO AUTOR

O título original desta série é um trocadilho: Red Son (filho vermelho, ou filho comunista) brinca com o homófono “red sun” – sol vermelho, um dos conceitos mais populares na mitologia do quase octogenário personagem de Jerry Siegel e Joe Shuster. A pesada adaptação nacional (talvez Foice e Martelo bastasse?) é pouco sutil na alusão ao seu viés político, mas reconheço a dificuldade em soar atraente e, ao mesmo tempo, driblar a obviedade.

Após mais de uma década desde sua primeira publicação nacional (em 2004), o genial Elseworlds (aqui, Túnel do Tempo) de Mark Millar seguia como um dos encadernados mais pedidos, prometidos e adiados pela Panini Comics – a única republicação anterior tinha sido em 2006. Eis que, em meio à turbulência das mudanças no modelo de distribuição da Panini, a nova edição finalmente vê a luz do dia.

Confesso que temi que, quase 15 anos depois, a história não fosse me cativar como antes. Achei que teria que inventar algum subterfúgio emocional para justificar sua importância, mas, que nada: parece algo escrito nos dias que correm e o tempo apenas refinou suas qualidades. Ainda que as discussões político-filosóficas não sejam assim tão profundas, Millar entrega uma história capaz de levar à reflexão, em uma mídia e através de um protagonista reconhecidos como símbolos do escapismo.

A ideia e o medo de um Superman autoritário não são novos. Já houve tramas anteriores e posteriores com essa abordagem, mas Millar consegue imprimir renovado interesse, ao colocar o Superman em um contexto totalmente contrário ao de sua origem consagrada: em vez de cair nos Estados Unidos, sua nave cai numa fazenda na antiga União Soviética; em lugar de tentar disfarçar-se e tentar viver como uma pessoa comum, ele é treinado para ser uma arma desde a infância e não adota identidade civil, revelando-se ao mundo, desde o primeiro momento, como uma arma; em vez de defender “a verdade, a justiça e o modo de vida americano”, ele se apresenta como “campeão do proletariado, luta na guerra sem fim por Stalin, pelo socialismo e pela expansão internacional do Pacto de Varsóvia”.

Nesse mundo, os soviéticos ganham a Guerra Fria. O mundo se transforma numa utopia de paz e segurança, mas de nenhuma desobediência ou discordância com o regime – os poucos e loucos que desafiam o sistema sofrem lavagem cerebral. Exceto pelo Batman. Eterna pedra no sapato do Superman, o Batman luta pela liberdade de pensamento e orquestra ataques cada vez mais ousados ao kryptoniano e tudo que ele representa. “Batmankoff” é “apenas um homem”, mas é, também, um tremendo incômodo.

Enquanto isso, nos EUA, único país que recusou curvar-se ao poderio soviético, destruir o Superman vira o objetivo da vida do cientista Lex Luthor. A nação está em frangalhos, mas o governo gasta, durante décadas a fio, o que pode e o que não pode nas tentativas de barrar o avanço do Superman e do comunismo global. A descoberta de intrigantes artefatos alienígenas, porém, pode dar a Luthor o poderio e a oportunidade de que ele precisa.

Luthor e Batman: “superamigos”

A distopia de um Estado vigilante totalitário é um tema caro à cultura pop e remonta, no mínimo, a 1949, quando George Orwell escreveu o definitivo 1984. Num momento da história em que as pessoas desejam enxergar tudo em tons absolutos de preto e branco, e quem não está totalmente a favor só pode estar totalmente contra, Millar transforma tudo e a todos em uma grande massa cinza. Não há sistema político-econômico melhor ou pior. Ninguém é somente bom ou somente mau. Qualquer escolha tem um preço, mas negociar a liberdade (a sua ou a alheia) costuma sair bem caro.

Pontuando toda a história, imagens icônicas do panteão da DC reinterpretadas e o imaginário visual da propaganda comunista adaptado. O traço de Dave Johnson, visto nas capas, na parte 1 e em cerca de metade da parte 2, é gracioso e nostálgico. Quando Killian Plunkett assume, indo até o final, mal se distingue um do outro. Uma releitura comparativa, porém, me faz desejar que tivesse sido Johnson a concluir a série, que Mark Millar chamou de “O Cavaleiro das Trevas do Superman”. Perdeu-se um certo charme nostálgico na transição.

Cuidado: ele pode ser fofo, mas, também, pode cortar fora sua “mais-valia”…

Se Superman: Entre a Foice e o Martelo um dia gozará do mesmo status do clássico de Frank Miller, só o tempo dirá – afinal, existem quase vinte anos separando as duas obras. Desde seu lançamento, porém, não houve dúvidas de que se tratava de uma ótima história. Ouso ir além e decretar: se a conclusão das tramas de Mark Millar costumam ser seu calcanhar-de-Aquiles, temos aqui o mais poético e redondinho deles. Muda tanto – e tão bem – o que sabemos sobre “o estranho visitante de um planeta distante” que podia ser canônico.

Garanta seu exemplar. Vai que leva mais dez anos pra sair de novo…

  

Roteiro: Mark Millar

Arte: Dave Johnson e Killian Plunkett

Editor: Mike McAvennie e Tom Palmer

Capa: Dave Johnson

Publicação original: Superman: Red Son (junho a agosto de 2003)

No Brasil: setembro de 2017

Nota dos editores:  4.3

 


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