Despacho

4.0

NOTA DO AUTOR

O Brasil sempre foi referência em quadrinhos de terror, mas, de um tempo pra cá, essas publicações foram se extinguindo. A Editora Draco, capitaneada por Raphael Fernandes, vem buscando reverter isso, com várias publicações nessa área, de diferentes artistas nacionais.

Despacho parece ser o ápice dessas publicações. Lançada na CCXP 2017, essa antologia conta com 8 histórias de diferentes artistas e todas têm algo em comum: são baseadas em figuras do folclore nacional! Organizado por Fernando Barone e Samuel Sajo, as histórias vão desde um cramulhão na garrafa até o ET de Varginha fazendo parceria com o ET Bilu e o Chupa-Cabra para resgatar o bebê-diabo.

Por se tratar de uma antologia, você poderia esperar que a qualidade das histórias variasse muito, mas não é o caso aqui. Todas elas mantém um alto nível, tanto no roteiro quanto na arte. Fica difícil destacar uma ou outra, portanto irei escrever um pouco sobre cada uma.

Em O Diabo que Te Carregue, com roteiro e arte do Victor Freundt, temos uma história de um pacto com o capeta e como isso pode ser perigoso. A arte dele é extremamente detalhista e suja, o que casa perfeitamente com a história do demônio na garrafa que ele conta aqui.

A segunda história é O Castelo, com roteiros de Alessio Esteves e arte de André Martuscelli. Aqui, um corretor vai até um castelo que dizem ser mal-assombrado para tentar convencer seu proprietário (a cara do Alan Moore) a vender a propriedade. O que ele não sabe é o que realmente tem dentro daquela casa. O roteiro enxuto e a arte mais simples dessa história se encaixam bem na proposta.

Em seguida temos Segredos, com roteiro do Samuel Sajo e arte do Abel. Um grupo de adolescentes arruaceiros se encontra com um senhor que está com uma oferenda numa encruzilhada e acabam agredindo o “macumbeiro”. Um dos adolescentes não se sente bem com aquilo e tenta fugir, quando acaba sendo agredido pelos outros dois, que estão numa cruzada santa para livrar o bairro dos infiéis. Numa história de reviravoltas, a arte do Abel é a mais limpa até aqui, com poucos traços e bastante angulosa.

Em O Pastor em: Dízimo de Sangue, de Raphael Fernandes e Juliano Kaapora, uma série de assassinatos vêm ocorrendo na cidade e tudo o que resta das vítimas são as mãos decepadas largadas pela rua, com várias marcas nelas. Os policiais decidem contactar uma figura conhecida apenas como O Pastor, e dizem que ele cobra seu dízimo diretamente do demônio. Uma trama policial sobrenatural, seria a melhor maneira de definir essa história. Talvez o capítulo com mais ação até aqui, a arte do Kaapora está sensacional, principalmente no painel onde a criatura que eles estão caçando aparece.

Lupina, com roteiros de João Carpalhau e arte de André Oide, revisita o mito do Lobisomem brasileiro. Um repórter da revista Mundo Bizarro vai entrevistar Paula, dona da boate Lupina, na Rua Augusta, e ela conta pra ele a história dos seus avós e de como a maldição do Lobisomem chegou na família dela. A arte do Oide lembra os desenhos de literatura de cordel. Essa talvez seja a história menos gore de toda a antologia.

Em Brutalizados no Sítio, Airton Marinho e Samuel Sajo repetem a dupla de Helldang, mas aqui a história é muito mais bizarra. Uma travesti prostituta e um viciado acabam sequestrando o cliente dela e levando para um sítio, onde uma figura ainda mais bizarra está esperando por eles. O cara costuma transar com os bichos do sítio, mas eles passaram alguma “doença” pra ele e aí ele resolve fazer uma boneca de pano para saciar seus desejos sexuais. Mas o negócio fica realmente bizarro quando essa boneca de pano ganha vida e resolve se vingar de todos aqueles pervertidos que estão ali. A arte do Samuel é bizarra aqui, o que casa perfeitamente com a história. Sua versão para o Saci é assustadora.

Em Envestigações Tupiniquins e o caso do bebê-diabo, de Tiago P. Zanetic e Bruno Soares, a agência E.T. (Envestigações Tupiniquins) envia seus agentes ET Bilú, ET de Varginha e o Chupa-Cabra para resgatar o Bebê-Diabo da Ordem dos Salvadores. Essa é a história mais divertida de toda a antologia. Praticamente um terrir. A arte do Bruno só ajuda nisso.

A última história é Fúria Ancestral, de Fernando Barone e Eder Santos. Conta uma história de uma tribo que convoca o poder do Pirarucu para lutar contra um fazendeiro que quer tomar as terras deles. Cheia de misticismo, a arte do Eder alterna momentos limpos, quando a tribo está interagindo com os brancos, e momentos bem sujos, quando o Pirarucu aparece.

A edição é bem caprichada. Capa cartonada com orelha e papel com uma boa gramatura (pólen bold). Uma excelente sacada da edição foi usar as várias definições da palavra despacho para dividir as histórias. E quase todas elas se encaixam nas histórias da edição. Outra boa sacada é que todos os traços lembram histórias da MAD, que o Raphael editou no Brasil por mais de 8 anos. Não é coincidência que vários dos autores trabalharam nessa encarnação da revista. Caso você goste de revistas de terror, vá atrás das publicações da Editora Draco, pois eles estão investindo muito nesse tipo de material. Você pode comprar essa edição AQUI

 

  

Roteiro: Victor Freundt, Alessio Esteves, Samuel Sajo, Raphael Fernandes, João Carpalhau, Airton Marinho, Tiago P. Zanetic, Fernando Barone

Arte: Victor Freundt, André Martuscelli, Abel, Juliano Kaapora, André Oide, Samuel Sajo, Bruno Soares, Eder Santos

Editor: Raphael Fernandes

Capa: Ioannis Fiore

Publicação original: -

No Brasil: dezembro de 2017

Nota dos editores:  4.3


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