Maus: A História de um Sobrevivente

5.0

NOTA DO AUTOR

É compreensível que possa existir um certo cansaço com obras sobre o massacre de judeus durante a 2ª Guerra Mundial – afinal, este é um tema que vem sendo explorado culturalmente ao longo de sete décadas, desde o fim do conflito, em 1945. Há pessoas que se solidarizam com as gerações alemãs nascidas no pós-guerra, achando que é hora de deixar para trás toda a tristeza do passado e olhar com esperança para o futuro. Vez por outra, porém, lemos notícias sobre surtos de popularidade dos ideais nazistas de supremacia racial, e o tema volta ser importante: se o mundo não for constantemente lembrado do que aconteceu, vai deixar acontecer de novo – apenas porque a raça humana é estúpida a esse ponto.

Maus é a história de sobrevivência de Vladek Spiegelman (1906-1982), pai do autor Art Spiegelman, sendo a primeira graphic novel a vencer o prêmio Pulitzer (a honraria máxima do jornalismo e literatura norte-americanos), em 1992. Seus 10 capítulos foram originalmente publicados entre 1980 e 1991, após um trabalho preparatório que levou oito anos. A história segue as muitas entrevistas de Vladek ao seu filho, durante a qual relembra os horrores da guerra, enquanto Art aproveita para fazer terapia em público, escancarando suas dificuldades de relacionamento com o pai.

Vladek não é, digamos, uma pessoa de fácil convívio. A certa altura, Art se preocupa com a possibilidade de seu fiel retrato da personalidade do pai ser encarado como racismo, já que o velho é um perfeito estereótipo do judeu obcecado por dinheiro. Sua teimosia e temperamento testam não somente a paciência de Art, mas, também, de sua nora, Françoise, e da segunda esposa, Mala – a primeira, Anja, mãe de Art, cometera suicídio anos antes.

O relato de Vladek começa antes da guerra, quando sua família vivia tempos de muita prosperidade na Polônia, mas sua esposa Anja afundava em depressão. Ao levá-la para tratamento na então Tchecoslováquia, ainda em 1938, Vladek tem seu primeiro vislumbre da suástica e do sentimento antissemita que logo se espalharia. A partir daí, ainda que seja possível rir de algumas tiradas de Vladek ao longo da história, entramos em uma contínua espiral de horrores e absurdos – felizmente, pontuados por momentos de alegria e emoção.

A opção do autor de usar animais antropomorfizados como personagens (judeus são ratos, alemães são gatos, poloneses são porcos) não diminui em nada a identificação, a tristeza e o choque que experimentamos durante a leitura. A descrição dos horrores nos campos de concentração não poupa detalhes incômodos (amenizados apenas pelo ótimo traço cartunesco em preto-e-branco), mas Maus é tanto um relato de denúncia do Holocausto quanto a jornada pessoal de Art Spiegelman, em busca de conciliação com seu pai e seu passado. Os conflitos enfrentados na produção da história rendem passagens tão ricas quanto aquelas ambientadas na guerra.

Experiência literária poderosa, Maus nos apresenta ao pior e ao melhor da humanidade. Apesar de todas as lições de coragem e perseverança a serem aprendidas com os sobreviventes, não dá pra esquecer que mais de seis milhões de pessoas perderam a vida de maneira torpe, condenadas pelo “crime” de apenas existirem. Após ler o seu exemplar, empreste àquele seu amigo que se recusa a entender por que é preciso estudar História.

  

Roteiro: Art Spiegelman

Arte: Art Spiegelman

Editor: 

Capa: Art Spiegelman e Louise Fili

Publicação original: The Complete Maus (2003)

No Brasil: Quadrinhos na Cia (2017)

Nota dos editores:  5.0


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