Jeremias – Pele

5.0

NOTA DO AUTOR

Uma das queixas que sempre tive sobre a série Graphic MSP é a falta de profundidade e ousadia. Não é que temas espinhosos nunca tenham sido vistos na série: já se falou de coisas como corrupção, pais separados e morte, mas o filtro do olhar infantil dos personagens de Maurício de Sousa frequentemente impedia um zoom sobre o problema, qualquer que ele fosse.

Jeremias – Pele vem para redimir a série dessa superficialidade. Sendo um dos mais antigos e ainda poucos personagens negros da Turma da Mônica, Jeremias protagoniza histórias ocasionais, mas esta é a primeira vez que seu nome estampa a capa de um lançamento do estúdio. Antes tarde do que nunca: a graphic novel de Rafael Calça (roteiro) e Jefferson Costa (arte e cores) surpreende pela contundência ao abordar – de uma forma séria, mas que uma criança vai poder e gostar de ler – o problema do racismo.

Na história contada aqui, Jeremias é filho amado e feliz de um casal de arquitetos. Em sua escola, ele é um destaque, sempre com ótimas notas. Mesmo quando é alvo das piadas racistas de um colega bully, Jeremias não tem uma clara noção do que está acontecendo e simplesmente estranha toda aquela implicância.

Tudo muda no dia em que a escola promove um Dia das Profissões e a professora escolhe Jeremias (que planejava falar sobre astronautas) para falar sobre pedreiros. Chateado, mas depois consolado e reanimado pela mãe, o garoto só se dá conta da maldade que o cerca no dia em que se envolve numa briga feia com Johnny, o colega que sempre pega no seu pé.

Da boca de Johnny, saem insultos raciais fortes e, infelizmente, muito comuns desde sempre. Jeremias não é poupado do peso da nossa cultura de negação da negritude. Depois da briga (e da comovente cena em que seu pai despeja um caminhão de novas e desagradáveis verdades sobre sua cabeça), Jeremias acorda para o fato de que não se vê (ou pouco se vê) no mundo que o cerca – de forma positiva, pelo menos.

Embora esteja sendo exposto a uma crueldade que até adultos têm dificuldades em enfrentar, Jeremias nunca deixa de ser tratado pelos autores como uma criança. Ele fala e faz coisas de criança, e isso é um ponto muito positivo. Ele enxerga o “monstro” à sua frente e sabe que é difícil enfrentá-lo, mas jamais desiste de acreditar que vai vencer – porque, como diz seu pai, em momento poderoso: isso não é uma briga, é uma luta.

Uma vez que a personalidade ou a história de Jeremias pouco haviam sido exploradas nos gibis comuns, os autores se sentiram confortáveis para recontar, através do garoto, experiências que viveram em primeira mão. O fato de Jeremias – Pele ser a décima-oitava Graphic MSP (portanto, representativa de uma “maioridade” do selo) não escapou à atenção do próprio Maurício. No editorial que abre esta HQ, ele se compromete a estender uma visão mais ampla da realidade aos seus gibis de linha, geralmente protegidos por um clima de “mundo ideal”. Se dará certo, só o tempo dirá.

A cena final, em que Jeremias conhece seu futuro melhor amigo, o Franjinha, é tão cheia de significados para quem lê quadrinhos, que é impossível não se reconhecer ali. Em mais de um momento, aliás, a história está pontuada por elogios à arte de fazer quadrinhos. Rafael e Jefferson criaram uma história interessante e movimentada, dessas que se lê de um só fôlego, porque é impossível desgrudar dela antes da última página. O traço estilizado e sensível de Jefferson serve igualmente bem às nuances de tristeza e de ternura da trama de Rafael.

Apesar do tema difícil (uma discussão tristemente relevante, 130 anos após o fim da escravidão no Brasil e 50 anos após a morte de Martin Luther King), a carga dramática de Jeremias – Pele não a torna panfletária ou cansativa, nem desvia do objetivo principal de uma obra em quadrinhos: o entretenimento. Há um equilíbrio invejável entre diversão e denúncia. O lugar desta obra é entre as recomendadas para leitura no ensino fundamental. Esta HQ é um tremendo triunfo da luz sobre as trevas e ela pode suscitar necessárias mudanças de pensamento.

 

  

Roteiro: Rafael Calça

Arte: Jefferson Costa

Editor: Sidney Gusman

Capa: Jefferson Costa

Publicação original: 

No Brasil: abril 2018

Nota dos editores:  5.0


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