My Heroes Have Always Been Junkies

5.0

NOTA DO AUTOR

Essa bela capa acima – além de linda, faço questão de me repetir – expressa bem o momento atual da arte de Sean Phillips. Quem acompanhou Kill or Be Killed (saiba mais aqui e aqui) pode perceber como seu traço mudou (evoluiu, em minha opinião), ganhando uma beleza plástica lindíssima, sem perder a ternura da narrativa que Phillips tão bem domina. Não me entenda mal: já era fã de seus desenhos; só que agora ele está ainda melhor. E não sou o único fã: suas quatro indicações ao Eisner não me deixam mentir, ainda que, injustamente, não ganhou como melhor artista. Perceba igualmente a diferença que as cores de Jacob Phillips faz no desenho. É um casamento tão perfeito quanto a união artística de Sean Phillips com o roteirista Ed Brubaker (este sim ganhou Eisner de melhor roteirista, mais de uma vez).

Agora, após a conclusão de Kill or Be Killed (fechou em vinte edições), Brubaker e Phillips retornam com mais um conto da premiada série Criminal. Vale dizer que essa série policial só teve os dois arcos do primeiro volume publicados no Brasil pela Panini, os excelentes CovardeLawless (acredite, isso não é nem a metade da série). Com o sugestivo nome de My Heroes Have Always Been Junkies, temos um conto de quase 80 páginas centrado na figura de Ellie, uma jovem viciada em drogas e em artistas (músicos e escritores) que morreram de overdose, cuja mãe, uma ladra e também viciada, morreu quando ela era criança. Agora Ellie está numa clínica de reabilitação de luxo para se limpar e acompanhamos sua história, por meio da famosa (e insistente) narrativa em off de Brubaker, e seu cotidiano na clínica com reuniões, consultas com médicos e a relação com os outros viciados. Numa dessas reuniões conhecemos um rapaz no auge dos seus 18 anos e com muitas passagens por clínicas desse tipo. No entanto, ele está disposto a se limpar e sair dessa, mesmo com a tentação de Ellie, por quem ele começa a se envolver.

Brubaker não economiza nas referências pop acerca do mundo da música (além de Jean-Paul SartreWilliam Burroughs). Sendo assim, prepare seu fone de ouvido e seu tocador de música. Não vou cair na armadilha de elogiar ainda mais a dupla, mais afiada do que nunca; roteiro e arte estão bem casados, é uma coisa só, seguindo o mesmo ritmo. É uma simbiose perfeita.

Temos uma história que aborda as drogas na vida real e no mundo pop, mas sem glamourizar nada, nem criminizar (muito pelo contrário: as falas cortantes de Ellie vão justamente no sentido inverso). A protagonista tem um passado conturbado – do qual ela não renega e esconde – e caminha em direção à escuridão com força e ímpeto. Não parece, mas ela é a personagem mais sóbria e confiante de todo o conto, mostrando saber para onde vai e o motivo de seguir adiante. No final, não sobra espaço para remorsos ou arrependimento. Esse é o universo cru, urbano, violento e cruel de Criminal e aqui não é muito diferente, exceto por algumas opções: boa parte da história não se passa nas ruas e não temos muito espaço para a violência gráfica (na verdade, não tem espaço algum).

Ainda assim, não deixa de ser um conto realístico, perigoso e cruel. Os personagens dessa história não são aquilo que se mostram e todos tem seus motivos para esconder algo. A graça, no entanto, não está em descobrir o quê: o motor dessa história é justamente o caminho percorrido por eles e como eles lidam com a chegada.

 

  

Roteiro: Ed Brubaker

Arte: Sean Phillips (cores de Jacob Phillips)

Editor: Eric Stephenson

Capa: Sean Phillips

Publicação original: outubro de 2018

No Brasil: inédito

Nota dos editores:  5.0


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