Adam Strange: Mistério no Espaço

A atração por personagens desconhecidos, eternamente sumidos ou injustamente escanteados é algo comum para leitores de quadrinhos de longa data. São personagens tão bons, tão legais, com uma pegada tão diferente dos demais que a gente não entende como não dão as caras com mais frequência, nem por que são esquecidos em grandes eventos das editoras. Adam Strange se encaixa muito bem nessa definição, um personagem com ótimas possibilidades que deu as caras de forma merecida pela última vez na obra que falamos nessa matéria.

Criado em 1958 por Gardner Fox e Mike Sekowsky, com clara inspiração em Buck Rogers e John Carter, o arqueólogo Adam Strange foi atingido acidentalmente por um raio misterioso que o levou ao planeta Rann, onde conheceu Sardath, o cientista chefe local, se tornou herói e constituiu família. Porém, os efeitos do raio eram temporários e quando se esgotavam, Adam reaparecia na Terra, onde calculava o local de aparição dos próximos raios a atingir o planeta para voltar ao seu novo lar. Nos anos 80, Alan Moore reutiliza o herói em seu celebrado Monstro do Pântano, acrescentando à sua mitologia o fato de que a população de Rann se tornara estéril, e Adam se tornaria a última esperança de perpetuar a espécie local – o que ele consegue ao fim do arco, engravidando sua esposa Alanna (filha de Sardath), que deu a luz à pequena Aleea.

Adam Strange: Mistério no Espaço é uma minissérie de 2004, naquela que podemos chamar de última grande fase editorial da DC, e nos apresenta uma atualização do personagem que tanto serve aos seus primórdios no estilo Buck Rogers/Flash Gordon de aventura espacial, quanto nos trás elementos de modernidade em seu visual, tecnologia e mudança do seu status quo. A minissérie tem um roteiro competente do Andy Diggle (Os Perdedores, Demolidor: Terra Sombria), que apesar de não ter grandes trabalhos de notoriedade, aqui sabe prender o leitor com excelentes ganchos a cada uma de suas oito edições, e um plot bem amarrado, que entrega e instiga a cada edição. A arte ficou a cargo do espanhol Pasqual Ferry (O Jogo do Exterminador, Thor), e casou espetacularmente com a história, dando um novo visual mais sci-fi para o personagem e uma dinâmica excelente para as cenas de ação na Terra e no espaço, tudo muito bem complementado pela colorização que abusa de efeitos de computador mas sem tentar ofuscar a arte.

O plot da minissérie parte do fato que Sardath finalmente conseguiu melhorar a tecnologia dos raios Zeta para que seu efeito fosse duradouro – assim, Adam não precisaria mais alternar seu tempo entre Rann e a Terra. Por isso, Adam vem ao nosso planeta uma última vez para encerrar todos os seus assuntos e esperar o raio Zeta marcado para buscá-lo… que nunca veio. Preocupado, Adam pede ajuda aos seus amigos na Liga da Justiça e recebe a visita do Superman que, consternado, informa foi até Alfa Centauri e viu que o sol de Rann se tornara uma supernova, liquidando todo o sistema solar ao redor. Entregue ao álcool e à desesperança nos piores lugares de Gotham, Adam recebe a visita de mercenários alienígenas que querem saber onde está Rann, e esta estranha pergunta lhe reativa a chama da esperança de ver sua família viva e o faz lutar, roubar a mochila a jato de um dos mercenários e ir em busca da sua família e seu planeta adotivo.

Mas o espaço é um lugar bem grande, e perigoso. E Adam acaba por se envolver e quase morrer em um dos jogos de guerra do planeta belicista Thanagar. Salvo mais de uma vez pela Comandante Sh’ri Valkyr da Frota Imperial thanagariana, que claramente tem interesses mais profundos na missão de Adam, este descobre traços de radiação Zeta e passa a acreditar que Sardath, de alguma forma, conseguiu esconder o planeta em outro lugar. Prosseguindo em sua missão, o rastreio da radiação Zeta o leva a uma estação espacial supostamente abandonada, mas que serve de esconderijo para uma nova encarnação dos Omega Men.

Thanagar é um planeta do sistema Polaris, e seu povo guerreiro é conhecido por sua ferocidade em batalha e pela sua tecnologia baseada no metal enésimo, que lhes garante asas metálicas com poder de voo, ao redor das quais surgiu a cultura e o visual de aves de rapina de seu povo. Os thanagarianos mais famosos são Carter Hall e Shayera/Shiera Hall, respectivamente Gavião Negro e Mulher Gavião. Além deles, uma infinitude de variações e releituras dos personagens permeiam as cronologias da DC. (Para uma melhor visão da sociedade thanagariana através dos olhos de um dos Gaviões Negros mais queridos (Katar Hol), indicamos Hawkworld, de Timothy Truman e Enrique Alcatena).

A partir deste momento, a história assume ares de uma grande intriga cósmica, na qual diversos personagens revelam suas verdadeiras motivações, mortes brutais, espiões durlanianos que se revelam e velhos conhecidos dão as caras de novo para piorar tudo. Vemos também a entrada em cena da L.E.G.I.Ã.O. de Vril Dox – não aquela com diversos heróis espaciais (e o Lobo), mas a força policial de aluguel automatizada controlada pelo coluano – ora atendendo aos anseios de seus clientes thanagarianos, ora seguindo os instintos de seu líder no que diz respeito a se recusar a ser um peão nesse jogo cósmico.

Mas dois são os pontos altos da saga: o primeiro é a revelação de que os instintos de Adam estavam corretos e Rann fora transportada para um novo universo afim de fugir dos planos do vilão misterioso; e o segundo ponto é justamente a revelação deste vilão e sua motivação: o Devorador Cósmico (o “Vampiro Espacial”, aqui conhecido pela fase do Dan Jurgens na Liga da Justiça – publicada em Liga da Justiça e Batman, da ed. Abril), mentor das ações da Sh’ri Valkyr, deseja a tecnologia dos raios ômega de Sardath para retornar ao nosso universo e consumi-lo. Assim, Sardath fingiu a supernova do sol de Rann e a destruição planetária para fugir deste destino. Para evitar riscos de descobrirem seus planos, Sardath tomou a dura decisão de deixar Adam na Terra, sem notícias.

Um destaque importante é a participação dos Omega Men, os já mencionados rebeldes do Sistema Vega (um canto do espaço do universo DC que carece de mais exploração, rico que é em conceitos e possibilidades) e seu posicionamento para a fase seguinte da editora. Um grupo com diversas encarnações (a mais recente na desastrosa minissérie do Tom King, em 2016). Não só eles, mas temos ainda a aparição dos últimos Darkstars: Ferrin Colos, Munchukk e Chaser Bron. Darkstars foram a força policial espacial que substituiu os Lanternas Verdes entre a destruição da bateria central em Oa (pelo Hal Jordan, ao se tornar Parallax) e sua reativação através dos então novos poderes de Kyle Rayner, então sob a identidade de Íon. Criados pelos Controladores, uma dissidência dos Guardiões do Universo, seu objetivo era dar ordem ao cosmos, e o seu agente mais famoso foi Ferrin Colos, que veio à Terra à cata de novos recrutas. Em suas muitas aventuras, os Darkstars chegaram a ter em suas fileiras Donna Troy (então sem poderes) e John Stewart (cujo anel energético se tornara inútil sem a bateria central). Um a um, os últimos Darkstars morrem no combate ao Devorador, com destaque à emocionante morte de Colos através da explosão do seu traje, afastando-se da frota de defesa de Rann e segurando o Devorador enquanto Rann retorna ao nosso universo, transmitindo por rádio suas últimas palavras: “Aqui é Ferrin Colos, último dos Darkstars. Lembrem-se de nós.”

Através da sagacidade de Adam e dos esforços coordenados da L.E.G.I.Ã.O. e Omega Men, o Devorador é fica preso em outro universo, Rann retornou ao seu universo de origem, mas…

…não ao seu sistema solar de origem: Rann está no sistema Polaris, vizinho ao planeta Thanaghar.

Como vemos, Mistério no Espaço prepara o terreno para a Guerra Rann-Thanagar, que é imediatamente deflagra numa das quatro minisséries (Vilões Unidos, Dia da Vingança e Projeto OMAC completam a lista – e merecem ser revisitadas) que levavam a editora, num crescendo, à sua megassaga Crise Infinita e que, como dissemos, foi o último grande momento editorial da DC Comics.

Afinal, temos aqui uma excelente minissérie, e a única reclamação que podemos fazer é a de que a fase não se desenvolveu num título mensal. Diggle traz uma excelente atualização do personagens (não só o Adam como os Omega Men, sua visão extremamente falconiforme dos thanagarianos, e a revitalização do Devorador Cósmico), sem desconsiderar seus aspectos clássicos, cria uma história dinâmica, bem encadeada e com um segredo instigante envolvendo tudo. Adam Strange: Mistério no Espaço foi publicada primeiro como minissérie em 4 edições em 2006, e republicada no formato encadernado (raro, na época) no ano seguinte. Nunca mais voltou ao catálogo das editoras nacionais, mas merecia ao menos um volume da coleção da Eaglemoss.

 

  

Roteiro: Andy Diggle

Arte: Pasqual Ferry

Editor: Tom Palmer

Capa: Pasqual Ferry

Publicação original: Adam Strange: Planet Heist (novembro de 2004 a junho de 2005)

No Brasil: janeiro a abril de 2006


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