Batman #39

2.5

NOTA DO AUTOR

Ai, ai… É muito ruim sentar à frente do computador para escrever mais uma resenha negativa de uma revista do Batman, porque ele foi o personagem que catalisou minha paixão pelos quadrinhos, na adolescência. Acompanhar a fase de Tom King na atual versão de Batman da Panini tem gerado em mim certo desconforto, que eu gostaria muito que fosse por aquele tipo de coisa que realmente balança o personagem e o modifica para adaptá-lo à sua época. O que Tom King vem fazendo, porém, é enfileirar acontecimentos impactantes no ato, mas que são esvaziados pelo próprio autor em seguida.

Como você leu aqui, a gente ficou sabendo que todo o romance entre o Batman e a Mulher-Gato era um astuto plano do vilão Bane (ooh!) para quebrar o herói mais uma vez – agora, por dentro (ooh!). Selina largou Bruce no dia de casar e o herói entrou em uma espiral de maluquice e autopiedade irritantes.

Cerca de um ano atrás, o KGBesta (tido como um dos mais letais assassinos da galeria de vilões do Batman) acertou um tiro de rifle, em cheio, nos miolos do Asa Noturna. O herói sobreviveu, e o máximo de dano que lhe ocorreu foi a vontade de trocar seu apelido Dick por outro mais estúpido, Ric (argh!).

De lá pra cá, tivemos algumas belas histórias, como aquela do julgamento do Senhor Frio e… bem, acho que foi só aquela, mesmo.

Os vilões do Arkham estão todos, por algum motivo, a serviço do peladão Bane – uma agremiação que inclui gente que normalmente não gosta de ser coadjuvante, como o Charada, e coisinhas desimportantes e nada-a-ver, como a Holly, prostituta juvenil que acompanhava a Mulher-Gato, no Batman: Um de Frank Miller.

Bane ainda conseguiu aliança com dois pesos-pesados: a enlouquecida, desenlouquecida e reenlouquecida Gotham Girl, criada por Tom King logo em sua chegada; e o Batman da realidade de Flashpoint, Thomas Wayne, que está “aqui” (isto é, na realidade principal da DC) fazendo sabe-se lá o quê. Supostamente, é para ajudar Bruce a ser feliz (mesmo que isso envolva torná-lo miseravelmente infeliz e inúmeras tentativas de matar o filho que ele deseja “salvar”).

Pois bem, o Bat-Pai levou o Bat-Filho para longe de Gotham e, sem que ficasse claro como, Bane tomou conta da cidade, ao ponto de a força policial agora contar com figuras ilustres, como o Coringa. Gotham está isolada e a lei marcial imposta por Bane é mantida com ajuda da Gotham Girl e do Bat-Pai (que largou Bruce no deserto pra morrer – para ele ser feliz, claro – e voltou). Todos os heróis, especialmente a bat-família, estão proibidos de aparecer na cidade. Claro que ia dar merda.

SPOILERS ADIANTE!

A esta altura, você já deve saber ou, no mínimo, suspeitar que Tom King sofre de depressão e leva sua luta e seus questionamentos pessoais aos quadrinhos que escreve, com alarmante frequência. Foi assim em Senhor Milagre, Heróis em Crise (argh!), e até na Marvel, onde ele fez um Visão deprimido (e maravilhoso, leia!). Em algum momento, se é Tom King escrevendo, você vai ver seu herói enfrentando demônios interiores, com um discurso psicológico floreado. Nada contra tratar deste e de outros temas sérios dentro de uma história do Batman – desde que isso complemente e não apenas tome o lugar da ação e da diversão.

Como dito logo acima, Gotham está fechada para os vigilantes mascarados, mas Damian Wayne, o Robin, crê que pode sobrepujar a primeira linha de defesa de Bane: a Gotham Girl (que tinha acabado de mandar o Capitão Átomo pro hospital) e o Batman do Flashpoint. Da garota, ele se livra com magia “alugada” e relativa facilidade. Já o embate com seu “avô” é na mão grande, como se diz na Bahia. Troca de soco raiz, com Damian socando o bat-coroa e desferindo as bravatas que nos fazem amá-lo. Ponto para Tom King aqui: ele não mudou o menino para servir à sua história.

O problema é que Thomas Wayne pode não ser “O” Batman, mas é o Batman. Damian acaba derrotado e, como punição, assiste ao assassinato de Alfred Pennyworth pelas mãos de Bane – Thomas concordou com isto porque, afinal, quer ver seu filho feliz, lembra? Espancar seu filho e matar sua figura paterna ajudam, claro.

Exceto pelo choque, para que serve a morte de Alfred? A gente sabe que ele não vai ficar morto por muito tempo – e pode estender esse benefício até aos buchas Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, também mortos nesta edição. O mordomo é uma parte vital da humanidade do personagem – é mais fácil acreditar que o Batman largaria sua missão por ele estar morto do que tendo sua mãe revivida, como era o plano de Thomas. Quase um ano já se passou e Alfred ainda não voltou na fase do James Tynion IV (o substituto de Tom King), mas, escreva o que eu digo: VAI ACONTECER.

Mas, eu falei de todo mundo e não falei dele. Cadê o Batman?

Ora essa, o Batman está fazendo o que qualquer um faria, ao saber que sua cidade está pegando fogo sob o controle de um inimigo implacável, que o Arkham foi esvaziado, que sua família está sendo abatida e que seu pai é parte de tudo isto: ELE ESTÁ TRANSANDO NA PRAIA, ORA!

Sério. O bicho pegando em Gotham, e Bruce Wayne – sabendo de quase tudo – está curtindo férias com a Mulher-Gato, que (claaaaaro…) tinha um plano dentro do plano do Bane. Ela salvou o Batman e os dois ficaram de D.R. , primeiro em Paris, depois no Hawaii. Cozinhando. Bebendo café. Treinando. Transando. Nada contra cozinhar, beber café, treinar ou transar, muito pelo contrário, mas A PORRA DO MUNDO ESTÁ ACABANDO, SEUS LOUCOS!

Sendo justo, não é uma edição ruim de ler. O ritmo é até bom, principalmente se comparadas àquelas edições insuportáveis dos pesadelos. O problema é o amontoado de absurdos, numa fase que faz muito barulho, mas provavelmente vai cair no esquecimento em dois tempos. Teremos mais duas ou três edições disso e o Tynion assume, deixando King delirar em Batman/Catwoman (que já foi anunciada como sendo fora da continuidade – ufa!). Não sei como Cidade do Bane vai terminar e muito pouco me preocupa, desde que termine.

 

  

Roteiro: Tom King

Arte: Tony S. Daniel, Mikel Janin

Editor: James S. Rich

Capa: Tony S. Daniel

Publicação original: Batman 76-78 (DC Comics)

No Brasil: Batman 39 - Panini - Junho 2020

Nota dos editores:  2.5


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