Sherlock Time

4.5

NOTA DO AUTOR

Nem adianta culpar o total desinteresse editorial brasileiro por publicações argentinas como causa do meu desconhecimento acerca do escritor Héctor Germán Oesterheld e do desenhista Alberto Breccia (eu mesmo só conhecia, até então, a Mafalda do genial Quino). A editora Comix Zone, cujo início das atividades deu-se em 2019, vem preenchendo essa lacuna. Eternauta 1969 saiu ano passado e teve, ao menos em minhas redes, boa repercussão (vale dizer que O Eternauta saiu aqui completo pela Martins Fontes). No entanto, meu início aconteceu aqui com Sherlock Time, publicado em maio. O que temos aqui?

Sherlock Time é, igualmente, o nome do co-protagonista dessa edição. São 11 Histórias, sendo 9 curtas, de dezesseis páginas em média, mais 2 longas e publicadas na horizontal, que saíram em Hora Cero Semanal (em capítulos de três páginas). A editora manteve o formato horizontal, valorizando a arte de Breccia. Aliás, como desenha! Ele explora como poucos o preto e branco em sua arte, utilizando muito bem sombras e os tons de preto. A história corre solta pelo seu traço, ainda que cada página possua um ou dois quadros apenas com texto, entre a arte. A estranheza do roteiro ganha outro contorno graças ao trabalho de Breccia. Mesmo em ambientes familiares, ele consegue causar o incomodo que o roteiro pede, trazendo ainda mais mistério, suspense e horror por páginas a fio.

Por seu turno, o roteirista Oesterheld cria história imaginativas, estranhas e ótimos diálogos – que não são nem um pouco cansativos, para um gibi publicado no final dos anos 1950. Se você não tem qualquer familiaridade com programas como Além da Imaginação ou nem sabe do que se trata, sugiro se informar um pouco antes e não ficar boiando na leitura. São histórias surreais (para ficar no mínimo), inventivas, absurdas quase sempre, e recheadas de mistério e da melhor ficção científica da metade do século (e uma dose de política, bem contextualizada por notas de rodapé). Se sua praia são aqueles filmes malucos, imprevisíveis e absurdos, vai adorar isso daqui. Ao lado de Sherlock Time (o nome é literal: ele é um “detetive” que explora casos inexplicáveis MESMO), o aposentado Julio Luna se encarrega de ser o narrador das aventuras. Logo na primeira história conhecemos Luna, que comprou uma mansão por um preço baixíssimo e agora percebe que a casa esconde alguns horrores sobrenaturais. Daí em diante, o simpático e cético aposentado é jogado nas mais estranhas aventuras.

Pois bem, cheguei nesse gibi no escuro mesmo, sem saber de nada. A Comix Zone me deixou nesse escuro também, posto que o encadernado vem apenas com a história e uma página explicando bem resumidamente onde foi publicado originalmente e o fato de manter as páginas horizontais conforme o original. E nada mais. Se não sabia quem foram Oesterheld e Breccia ou qualquer informação adicional acerca de suas criações, continuaria sem saber se dependesse apenas do encadernado. A editora poderia disponibilizar tais informações em seu site, mas não existe um site. Então eu vou ao Google mesmo e me resolvo por lá. O sócio-proprietário da editora me explicou no Twitter que isso geraria páginas adicionais, o que encareceria a obra. Ao menos respondeu – mas continuo achando que um blogzinho complementaria a edição e não custaria absolutamente nada. Quem não tem site hoje em dia?

(A tradução de Sherlock Time é de Thiago Ferreira.)

 

  

Roteiro: Héctor Germán Oesterheld

Arte: Alberto Breccia

Editor: -

Capa: Alberto Breccia

Publicação original: Hora Cero Extra e Hora Cero Semanal (1958-1959)

No Brasil: maio de 2020

Nota dos editores:  4.5


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