O fim da identidade visual

Em 2016, quando a DC Comics anunciou o “Renascimento”, logo em seguida começou a sair as equipes criativas e as novas revistas publicadas dali em diante pela editora. Chamou a atenção o fato das principais revistas terem se tornado quinzenais. Dois anos depois, seguem firmes e fortes nessa nova periodicidade; e a razão dada à época era para baratear as revistas. (A bem da verdade, ambas editoras, Marvel e DC, já usaram desse artifício por razões distintas.)

Vou pegar de exemplo uma das equipes criativas mais celebradas quando o anúncio saiu: Batman seria (e ainda é) escrita por Tom King e desenhada por David Finch e Mikel Janín. Dois desenhistas, pois um só não daria conta de fazer um título quinzenal. Não lembro se ficou claro, mas a ideia era os artistas se alternando nos arcos. Finch começou ao lado de King, cujo primeiro arco teve seis partes; ou seja, três meses. Na última parte, Ivan Reis assumiu o lápis. Tivemos um interlúdio na revista, um mês com duas partes da péssima saga criada por Steve Orlando. Na edição 9, Janín finalmente estreava na revista e deu conta das cinco partes do arco que ficou responsável. Não vou seguir adiante nesse sumário: Mitch Gerads ficou com mais um interlúdio de duas partes, Finch volta para um arco de cinco edições e chegamos no gargalo da revista: o arco em oito partes “A Guerra de Piadas e Charadas”, na qual Janín teve que ceder duas edições a Clay Mann.

Finch, Janín, Gerads e Mann possuem traços bem distintos uns dos outros. É gritante a mudança. Se ficarmos só na dupla principal, a diferença é visível a olho nu. Veja que não estou falando em mudanças no uniforme, elipse amarela, orelhas pontuas ou curtas, muito preto ou muito cinza. Isso são mudanças impostas pela editora e que, a depender do artista, você consegue perceber mais ou menos de forma clara. (Igualmente não vou entrar na seara do Batmóvel, que muda de artista para artista desde que o mundo é mundo.)

Falo de uma identidade visual própria do personagem naquele momento. E agora que a Panini não publica mais revistas mixes, isso fica ainda mais óbvio para nós, leitores brasileiros. A cada dois meses, mais ou menos, o estilo da revista muda completamente. A arte de Finch não conversa em nada com a arte de Janín.

Além disso, parece que finalmente os prazos, um grande tormento na vida dos artistas, foram flexibilizados largamente. O citado Clay Mann foi anunciado ao lado de Tom King na maxissérie mensal em nove partes Heroes in Crisis (leia o review da primeira aqui). Na terceira e mais recente, foi substituído por Lee Weeks. Em outras palavras: ou mudamos o artista no meio do caminho, ou a revista atrasa. Basta ver Doomsday Clock, que de mensal passou para bimestral, tudo para manter Gary Frank no título ao longo dos 12 números.

Mitch Gerads parece ter conseguido um feito inédito nesses tempos de grande rotatividade de artistas: deu conta das 12 edições de Mister Miracle (já ouviu o 7 Jagunços sobre a série? Ouça aqui) sem grandes atrasos, fazendo o desenho, arte-final, colorização e a capa variante. No fim das contas, temos gibis saindo no prazo (exceto por um ou outro entrave) e uma grande variedade de artistas quase mensalmente. Chega de ficar preso a um único estilo?


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4 comentários sobre “O fim da identidade visual

  1. Confesso que sou do tipo que tinha bastante resistência com a alternância de artistas entre edições, muitas vezes dava até uma desanimada de ler. Tem gibis que se fincam justamente nessa qualidade de forma longeva, como Ultimate Spiderman ou mesmo as 100 primeiras do Quarteto Fantástico, até mesmo Batman dos N52.
    Mas dada a situação quinzenal, e com bons artistas assim, fica muito bom também. Embora eu ainda tenha resistências quanto a mega sagas, da principal, onde em teoria é o auge de qualquer artista pegar pra desenhar. Agora… Falando em atrasos… A DC não vai superar tão cedo seu recorde com “Cavaleiro das Trevas III”, sério, foi coisa de 2 anos e tanto pra 9 edições…

      1. Pela arte sim, embora comparando com vários trabalhos que eu vi dos Kubert, tão inferior a muita coisa que eles fizeram, como Kazar ou Ultimate X-Men. Mas, achei a história sem ousadia, e tornar jovem o Batman é no mínimo a antítese do que Cavaleiro das Trevas representa.

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