Batman #26 – Edição Especial de Casamento

3.0

NOTA DO AUTOR

Precisamos falar sobre Tom King.

Saudado, à época da chegada do Renascimento na DC, como o escritor que traria o Batman de volta aos seus dias de glória, King acabou entregando um run de 50 edições (até aqui) que, no mínimo, divide opiniões.

Pode-se elogiar ou criticar essa trajetória com igual razão. Ao mesmo tempo em que King soube arquitetar boas histórias e bons diálogos, também deu ao seu Batman uma pinta de “homem em processo de desconstrução” que incomoda a alguns. Quando acerta, ele consegue, por exemplo, fazer de Bane um vilão a ser temido, depois de anos em que o gigante anabolizado foi reduzido a quase nada.

Quando erra, porém, King patina numa pretensão psicológica irritante e coloca o Batman em momentos patéticos, como a bizarra cena em que o herói se ajoelha pra rezar com o Coringa, na edição anterior. É perceptível, nesta e em outras de suas obras, que melancolia e solidão são temas caros ao autor, mas jornadas de autocomiseração precisam ter um propósito – mais do que isso, precisam ter um fim que não seja a morte.

O romance do Batman com a Mulher-Gato não foi criado por King, mas ele peitou a tarefa de oficializar a coisa. A empreitada rendeu algumas histórias acima da média, como aquela em que a Mulher-Gato enfrenta Talia Al-Ghul e o double date com Superman e Lois Lane.

Aí, chegamos à data/edição do casamento.

Spoilers adiante, ok?

O ser humano tem essa incrível capacidade de seguir em frente, apesar de todos os reveses e, por vezes, até por causa deles. Até o mais comum dos homens é capaz de passar por uma tragédia pessoal, como a perda prematura dos pais, e seguir adiante com sua vida, colecionando os inevitáveis momentos de tristeza junto a conquistas pessoais e, sim, alegrias. As tragédias que vivemos nunca são esquecidas, mas, em algum momento, todo mundo acaba tirando-as do centro da atenção, porque “como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça” (obrigado, Biquíni Cavadão).

Os percalços da vida nos impulsionam. As perdas e fracassos são uma força motriz pra qualquer pessoa comum, mas alguns autores querem nos fazer crer que o menos comum dos homens, versado em técnicas de autocontrole que o tornam virtualmente imune a armadilhas mentais, ainda combate o crime para reparar um crime acontecido há, sei lá, uns 30 anos. Pior que isso, tiram do bolso uma alegação, supostamente legítima, de que o Batman precisa da tristeza ou do trauma para ser quem é e fazer o que faz.

Aí, quando o Batman finalmente deseja ser feliz, a Mulher-Gato o abandona, depois de dezenas de edições declarando seu amor, com a justificativa de que ele não pode ser o Batman se for feliz. Quer dizer, ELA acha que sabe mais sobre o Batman do que ELE.

Todos sabemos que as coisas nos quadrinhos mudam tanto e dão tantas voltas que acaba tudo voltando ao que era no começo. O desafio a essa constância nem sempre é premiado com sucesso junto ao leitor, mas, poxa, vejam o exemplo do Superman: ele não apenas se casou com a “eterna namorada”, como teve um filho com ela. Vive uma vida de heroísmo e ainda acha tempo pra ser bom marido e bom pai.

Ao Batman, foi dada a chance de paternidade com Damian Wayne, mas os escritores (e a incrivelmente burra alta cúpula da DC Comics) continuam achando que ele tem que ser um solteirão a sonhar com uma felicidade inalcançável – e se o Batman ainda é alguém que não entende que um casamento tem percalços ou que a felicidade é uma coisa que vem e vai, o que terei eu aprendido com ele, em 35 anos como leitor?

Pois é, o Batman e a Mulher-Gato não se casaram. Tudo é de uma covardia tão grande que chega a dar náusea, porque Tom King certamente tinha cacife e talento suficientes pra levar a coisa em uma direção diferente, sem que fosse preciso trair a essência dos personagens e seus propósitos.

Mas, não. O que a gente tem é uma gigantesca broxada de 50 páginas – lindamente ilustrada e narrada com o habitual esmero, mas, ainda assim, vergonhosa. Joelle Jones, a artista que criou o deslumbrante vestido de Selina, deve ter chorado de desgosto.

É louvável que Tom King queira discutir a natureza humana e explorar recantos sombrios da mente do Batman, mas existem maneiras melhores de fazer isso – uma delas é não esquecendo que a gente compra gibi pra se divertir, também. Este “casamento” foi uma piada de péssimo gosto. Não invalida o que King fez de bom até aqui, mas minou um bocado da confiança que eu tinha nele.

 

  

Roteiro: Tom King

Arte: Mikel Janín e artistas convidados

Editor: James S. Rich

Capa: Mikel Janín (variante por Jim Lee)

Publicação original: setembro 2018

No Brasil: maio 2019

Nota dos editores:  2.8


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