A vez do Venom?

Originalidade, na ficção, sempre será menos produtiva que a habilidade de contar bem uma história. Um conceito original é magnífico, lindo. Mas de que adianta se, na hora do vamovê, não for desenvolvido corretamente? E principalmente no mundo das histórias em quadrinhos, vemos ideias não tão originais ou mesmo usadas à exaustão, surpreendendo novamente ao serem reaplicadas em roteiros que conseguem bons resultados. O caso em questão? A velha ideia de um personagem desgastado descobrindo que na verdade faz parte de um legado do qual nunca soube a existência.

Eis a malandragem e a habilidade narrativa de Donny Cates, fazendo pelo Venom o que J. Michael Straczynski não conseguiu fazer pelo Homem-Aranha ao se utilizar do conceito que Alan Moore usou no Monstro do Pântano há mais de trinta anos. E olha que falando especificamente do Venom, a expectativa era de que daria errado vergonhosamente.

Primeiro, pelo status bagaço-ultra-espremido que o personagem adquiriu desde que foi criado nos anos 1980. Inicialmente um uniforme apenas, foi revelado como uma forma de vida alienígena com natureza simbiótica, sobrevivendo de adrenalina. O azar de Peter Parker não permitia nem mesmo que um traje visualmente estiloso e cheio das utilidades, tipo responder a comandos mentais, encolher e expandir ao gosto do freguês, produzir teias e tal, fosse apenas isso, um traje. O troço vindo do mundo-mosaico criado pelo Beyonder na primeira maxissérie da Marvel, Guerras Secretas, se revelou um problema pro Homem-Aranha. Foi retirado na marra dos couros do aracnídeo e colocado num garrafão. Escapou e acabou achando um novo hospedeiro em um concorrente de Parker no Clarim Diário, o repórter Eddie Brock. E aí finalmente passou a se chamar Venom, causando todo tipo de perrengue pro sobrinho da Tia May daí por diante.

Com o tempo, foi ficando cada vez mais caricato. Violento. Esquizofrênico. Teve uns momentos de anti-heroísmo. Na verdade passou por todos os estágios que vilões populares da Marvel eventualmente passam. Inclusive ficando insuportável. Enfim veio o desgaste e ninguém mais sabia o que fazer com ele.

Por um tempo, Brock e o alienígena foram separados. O novo hospedeiro foi Mac Gargan, o Escorpião, também inimigo do Aranha. Nesse período, o personagem foi utilizado por Warren Ellis, Brian Michael Bendis e Mike Deodato nos Thunderbolts e nos Vingadores Sombrios. Brock, por sua vez, tornou-se o Anti-Venom. Algum tempo depois, o simbionte se uniu a um amigo de Parker, Flash Thompson, gerando um herói militarizado que foi chamado de Agente Venom. Teve até mensal própria e fez parte dos Vingadores Secretos e dos Guardiões da Galáxia. Eventualmente, Brock e o simbionte foram reunidos.

E agora, quando ninguém mais queria saber de uma mensal do Venom original, exceto os fãs das poses em que o bichão escancara a bocarra cheio de dentes e pendura uma língua asquerosa, surge um roteirista relativamente novo e aparentemente cara de pau, com a audácia de chupinhar uma ideia de Alan Moore, vejam a ousadia. Mas sejamos justos: ele não é o primeiro. Nem mesmo o Straczynski foi o segundo. Desde os anos 1980, quando Moore emplacou o conceito no Monstro do Pântano, o sucesso foi tão grande e a solução tão bem aceita que, de lá pra cá, outros roteiristas se valeram do mesmo expediente para dar relevância aos personagens que roteirizavam.

Antes que alguém cite o Fantasma, o Espírito que Anda das tiras de jornal, ou o Pantera Negra da Marvel, cujas histórias os mostram como parte de um legado, é bom mostrar a diferença da ideia de Moore. Aqui, um personagem surge e revela ao herói (ou anti-herói) que ele na verdade está apenas ocupando um “cargo”, mantendo vivo um legado que se estende há tempos. No primeiro exemplo de todos, John Constantine, Monstro do Pântano e os elementais do Verde. Nos exemplos a seguir, sempre havia um “Constantine”, esclarecendo a situação. Foi assim com Jason Aaron e o Motoqueiro FantasmaEd Brubaker e Matt Faction com o Punho de Ferro, Straczynski e o Homem-Aranha.

E agora, Donny Cates e Venom.

A primeira edição da nova mensal do personagem segue a fórmula direitinho, com um personagem que sabe muito, um protagonista que não sabe quase nada e um legado retconeado que promete ir mais longe do que se imaginaria. Mas e não é que a história é tão bem contada que nem o ranço do próprio Venom, nem a regurgitada do conceito conseguem estragar? Donny Cates tem um domínio admirável da narrativa, conduzindo a história em uma cadência e ritmo tão harmoniosos que o leitor acaba seguindo a história sem ter do que reclamar.

A solução achada pelo roteirista não teve nada de original, mas serviu perfeitamente como isca em seu anzol narrativo, prendendo a atenção e fisgando até mesmo quem não gostaria de admitir que, depois de três décadas desgastantes, Venom poderia ter uma mensal que vale a pena ser acompanhada. Não é a primeira e certamente não será a última vez que alguém usa a ideia de legado para tentar dar novo fôlego à um personagem saturado. Mas, como Neil Gaiman costuma dizer, reproduzindo uma frase do saudoso Terry Pratchett, “todas as histórias já foram contadas, mas gostaria de ver como você contaria essa”.

Maldito Donny Cates. Conseguiu até provocar uma citação à Gaiman e Pratchett em um artigo sobre Venom.


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