Aniquilação! (Ou “precisamos de outra guerra dessas…”)

No fatídico ano de 2006 um apocalipse espacial devastou planetas, civilizações, impérios e forças de manutenção da paz galáctica. A “Onda de Aniquilação” surgiu sem aviso, espalhando morte, horror e carnificina. E toda essa tragédia foi a melhor coisa que podia acontecer para a, assim chamada, Marvel Cósmica. Desde a sua reinvenção, nos anos 1960, o Universo Marvel cultivou tramas e conceitos envolvendo raças alienígenas, impérios intergaláticos, tudo cada vez mais elaborado, em uma crescente destinada a explodir na “Guerra Kree/Skrull”, uma saga ambiciosa para a época.

Com o entusiasmo de Roy Thomas e o traço inigualável de Neal Adams, os Vingadores e os Inumanos foram parar em meio a um conflito ancestral. Na Terra e no espaço, vários combates ocorreram até a suspensão das hostilidades (desenhada por outro ícone da Marvel, John Buscema), graças à intervenção da Inteligência Suprema do povo Kree (coletivo cerebral milenar, altamente poderoso e manipulador. Um dos melhores conceitos da Marvel, é preciso dizer) e de sua marionete, Rick Jones, aquele pivete causador de problemas (e franquias), tipo o Hulk, os próprios Vingadores e outras cousas no Universo Marvel.

Guerra encerrada, Marvel Cósmica sacramentada.

A partir daí, grandes sagas e personagens surgiriam, roteiristas e desenhistas brilhariam em fases cíclicas de sucesso e estagnação. Adam Warlock, Thanos e Capitão Mar-Vell seriam os mais bem sucedidos personagens cósmicos dos anos 1970, conduzidos pelo hoje lendário Jim Starlin. Ainda assim, a Marvel Cósmica brilhava por algum tempo, para logo reduzir a intensidade. De toda forma, o Quarteto Fantástico, os X-Men, Vingadores, quase todo gibi da Marvel teve sua cota de aventuras espaciais. E o universo expandia, demograficamente, com os Shiars, a Tropa Nova e Xandar, a Ninhada, ROM e os Cavaleiros Espaciais, os Espectros, Senhor das Estrelas, Guarda Imperial, Quasar e inúmeros outros.

Nas duas décadas seguintes, tivemos bons momentos, como a memorável A Morte do Capitão Marvel, o Surfista Prateado conseguindo escapar de seu confinamento na Terra (acredite, na época, era um evento quase inacreditável, aguardado há décadas) e lidando com o (primeiro) retorno de Thanos, que resultaria na saga Desafio Infinito e, eventualmente, na quase infinita quantidade de sequências escritas por Starlin, até hoje.

Uma saga, em especial, merece ser citada. A Operação: Tempestade Galática conseguiu ser divertida e relevante, mesmo com a quantidade enorme de títulos, roteiristas e subtramas envolvidos. O final, dadas as proporções, antecipou e conseguiu ser mais plausível do que a motivação usada por Mark Millar para iniciar sua Guerra Civil.

Eventos cósmicos, guerras interplanetárias, legados, uns muito bons e outros sofríveis. Foi assim até os anos 2000. Já na primeira década do século XXI, Kurt Busiek tentou e falhou, com sua saga Segurança Máxima. A premissa era interessante, a execução é que não esteve à altura. Depois disso, a Marvel Cósmica ficou relegada à servir de cenário para outros personagens e séries. Mal sabíamos que um ser de vasto poder e influência espreitava os recônditos espaciais…

E não, não estamos falando do líder da “Onda de Aniquilação”. O grande idealizador desse holocausto foi o editor Andy Schmitt. O sujeito foi tão insidioso que, mesmo quando anunciou o nome da saga, conseguiu manter os leitores se perguntando quem seria o grande vilão da história. Um palmface coletivo da comunidade nérdica ecoou, quando o óbvio foi revelado, ao final da devastadora edição Aniquilação: Prólogo: a “Onda de Aniquilação” era liderada pelo… Aniquilador. Tão simples quanto genial.

Keith Giffen, que havia roteirizado um arco na mensal Thanos em 2004 e a mini em quatro partes de Drax, o Destruidor, em 2005, foi o responsável junto com Scott Kollins por essa edição prólogo. E que edição, amigos do Space Opera. A invasão é mostrada como um evento bíblico ou seja lá qual seja sua religião ou mitologia preferida. Literalmente o fim dos mundos, assim, no plural mesmo. A “Onda” devasta uma prisão espacial ancorada à um fenômeno dimensional (criado por Giffen na mensal de Thanos), depois avança sobre planetas indefesos.

Pra estabelecer realmente o nível da ameaça, Giffen e Kollins narram a batalha final da Tropa Nova, guardiões de vários setores espaciais, bem como a dizimação de Xandar, um complexo formado por fragmentos planetários interligados. O combate é brutal. Massacre define melhor o que aconteceu. Toda a Tropa estava reunida em Xandar, para receber orientações sobre a, até então, ameaça desconhecida que vinha arrasando mundos distantes. Ao final, somente Richard Rider, o Nova terráqueo, escapa com vida, levando em sua mente e traje o download da Overmind, o repositório xandariano de conhecimento ancestral.

Após o prólogo, seguiram-se quatro minisséries em quatro partes cada, mostrando os diversos frontes da guerra e alguns personagens decisivos para a história: Surfista Prateado, Super-Skrull, Nova e Ronan, o Acusador. As minisséries finalizaram e a guerra se intensificou na mini principal, Aniquilação, em seis grandiosas edições. A verdadeira motivação do Aniquilador, o encontro sangrento de Drax e Thanos, a queda da Resistência, Nova se tornando herói galático, traições, reviravoltas e… A VINGANÇA DE GALACTUS!

Giffen e Andrea DeVito conseguiram produzir um épico sem nenhum dos heróis mais populares da Marvel. Trata-se de uma história fenomenal, empolgante e, contra o senso comum, cheia de personagens praticamente desconhecidos, sem nenhuma origem ou explicação dada ao leitor. Somente a ameaça e os heróis (ou mesmo vilões) tentando resistir ao infindável exército de insetos da Zona Negativa.

A guerra acabou e o renascimento de uma franquia estava começando. Nos anos seguintes, tivemos as continuações diretas do evento: Aniquilação: A Conquista, Guerra dos Reis Realm of Kings e O Imperativo Thanos. Mais do que essas sagas, Aniquilação rendeu o resgate de personagens do limbo, a exemplo de Peter Quill, Senhor das Estrelas, novas mensais, minisséries e, de certa forma, o filme mais improvável do universo cinematográfico Marvel: Os Guardiões da Galáxia, sucesso inesperado e surpreendente, não teria acontecido se não tivéssemos, primeiro, a Aniquilação.

Nos últimos anos, esse canto do Universo Marvel voltou ao ciclo de bons e maus momentos, com algumas mensais e eventos, a maioria capitalizando o sucesso dos dois filmes dos Guardiões, além de sua participação em Vingadores – Guerra Infinita. Inclusive, nesse exato momento, estão publicando uma saga chamada Infinity Wars, que ainda está em sua fase Countdown… Para quem leu aquela história sangrenta em 2006, fica aquela vontade de ver, mais uma vez, outra grande guerra espacial. A Aniquilação deixou saudades. Precisamos de outra boa e velha guerra nas estrelas…


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Um comentário sobre “Aniquilação! (Ou “precisamos de outra guerra dessas…”)

  1. Belo texto. Concordo plenamente com você. Acho que uma coisa legal da Aniquilação é que mostrou tudo sob pontos de vista mais “alienígenas” ao invés de focar na Terra. A Terra seria praticamente só mais um planetinha no caminho da aniquilação. Com exceção do Nova os protagonistas das minis nem eram terráqueos.

    Merece uma releitura (e até uma reimpressão quem sabe?)

    Abraço!

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