Os Eternos: quando os deuses caminhavam na Terra!

(…) Os deuses do nebuloso passado deixaram inumeráveis pistas que só hoje podemos decifrar e interpretar, pela primeira vez, porque o problema das viagens interplanetárias, tão característico de nossa época, já não era problema, mas realidade rotineira, para homens que viveram há milhares de anos. Pois eu afirmo que nossos antepassados receberam visitas do espaço sideral na mais recuada Antiguidade, embora não me seja ainda possível determinar a identidade dessas inteligências extraterrenas, ou o ponto exato de sua origem no Universo. Não obstante, proclamo que aqueles “estranhos” aniquilaram parte da humanidade existente na época e produziram um novo – senão o primeiro – Homo sapiens. (DÄNIKEN, Erich von. Eram os deuses astronautas?, “Introdução”, 1969)

Há algum tempo a Marvel Comics lançou pela bagatela de US$ 75,00 uma edição omnibus que resgata toda a grandiosidade da série The Eternals, escrita e desenhada por Jack Kirby quando em retornou para a editora em 1975. Lançada originalmente em 1976, a série durou 19 números (mais um anual em 1977) e era um trabalho padrão de Kirby, que tinha um gosto especial pelo fim do mundo. O Ragnarok foi tema constante durante sua fase em The Mighty Thor. Novos Deuses e seu Quarto Mundo começam após a queda dos velhos deuses (uma continuação indireta das tramas iniciadas em Thor). Em Os Eternos, temos novamente o tema do fim do mundo, e a tentativa de impedi-lo.

As origens d’Os Eternos

Os Eternos são livremente baseadas e influenciados pelas ideias apresentadas no livro Eram os deuses astronautas? de Erich von Däniken, onde defende-se a tese de que os deuses e anjos de várias mitologias são alienígenas, e os atos místicos e inexplicáveis nada mais eram que a demonstração de sua tecnologia. O livro de Däniken fez bastante sucesso, e a partir de 1969 gerou toda uma onda de livros “sérios” sobre a ufologia e o inexplicável. Kirby então se apropriou do conceito básico do livro para seus próprios objetivos. Para tanto, criou uma trama que apresenta três raças: 1) Os Celestiais: “deuses do espaço” é a maneira como são descritos durante a série. Eles vem à Terra de tempos em tempos para julgar os atos de seus experimentos. São incompreensíveis, não conversam e seus objetivos seriam supostamente “evoluir” a humanidade; 2) Os Eternos: a raça que dá nome à série é fruto de experimentos genéticos dos celestiais em humanos. Os Eternos já foram considerados deuses por outros povos. Inicialmente livre do peso cronológico da Marvel Comics, Kirby fez com que os Eternos que apresentava lembrassem deuses das mais diversas mitologias. Ikaris já foi Ícaro e guiou a Arca de Noé. Sersi fez fama no folclore celta quando transformou homens em porcos. Na trama tem a função de preparar o retorno dos Celestiais; 3) Os Deviantes: também frutos de experimentos genéticos, os Deviantes tem a bizarra capacidade de a cada geração mudar suas características. Por isso foram associados pelos humanos aos demônios e monstros.

A chegada dos Celestiais e o “final” da saga

Ao final da segunda edição chega Arishem e a Quarta Expedição, que irá novamente julgar a Terra e seus habitantes. Usando um padrão em suas obras, Kirby descarta os coadjuvantes humanos (Margô e seu pai, o Dr. Damian) para usar apenas os Eternos. Surgem Ajak, Sersi, Makkari, Duende, o banido (Gilgamesh), Zuras (líder dos Eternos, uma versão de Zeus) e Thena, filha de Zuras (certamente uma versão de Atena), dando espaço ainda aos Deviantes Kro (que manipula os humanos para enfrentarem os celestiais e tem um caso de amor mal resolvido com Thena, uma versão de Ares fundido ao demônio), o Rejeitado (um deviante belo e nobre, porém eventualmente violento) e Karkas (um deviante que se tornaria parceiro dos Eternos). Este grupo de personagens somados a Ikaris e o discreto Dr. Samuel Holden (escolhido para ser o elo entre a raça humanos e os Eternos/Deviantes) compõem o núcleo central.

Desde que chegaram à Terra ao final da segunda edição, os Celestiais estão colhendo informações sobre a Terra, andando sob o mundo com suas formas gigantescas. Além de Arishem, temos Nezzarr, Oneg, Hargen e Eson, todos juízes da raça humana. Zuras fica indeciso com a razão da Quarta Expedição e usa a unimente para tomar a decisão mais adequada. A unimente é um recurso que permite unir fisicamente todos os Eternos (e alguns convidados) criando um gigantesco cérebro, que por ser a união de todos os membros teria supostamente um julgamento mais adequado. Na edição 13, Tode, o imperador deviante, envia um grupo de kamikazes que pretendem explodir uma bomba de alto teor radiativo para destruir os Celestiais, porém astronautas humanos chegam na base e se envolvem na trama, sendo salvos por Sprite e o “Banido”, que destroem o equipamento.

Nas edições seguintes, inéditas no Brasil, temos o anual da série e os números 14 a 19. No anual (1977), como era comum, há um trama sem maior envolvimento com o contexto da série. Zuras envia Thena e os deviantes Karkas e Rejeitado para enfrentaram Zakka, the Tool-master que traz do passado criminosos que aterrorizam a moderna Nova Iorque. O conflito fica centrado entre Rejeitado e um monstro chamado de Tutinax.

Na edição 14, os Eternos retornam da unimente, mas parte da energia abastece um robô-Hulk feito por universitários que queriam um mascote para o time. Os Eternos Ikaris, Sersi e Mikkari enfrentam o robô que o auxílio dos coadjuvantes humanos Margô e Dr. Samuel Holden. O conflito continuaria em toda a edição 15, e somente na edição 16 com a chegada de Zuras é que a situação é resolvida. Mas a ação continua, quando uma tumba ancestral é encontrada e lá habitava o agora liberto Dromedan, que manipula alguns dos heróis. Esta trama é concluída na 17ª edição, quando diante da aparente derrota de Zuras, Ikaris e Makkari nas mãos de Dromedan, Sersi cria cópias de Ikaris para atacá-lo. É citado pela primeira vez os “The Polar Eternals”, um grupo que vive em zonas frias, certamente o uso de conceito dos vikings, aproximando assim, Ikaris de Thor!

Neste tom é que termina a série. Na penúltima edição, a 18ª, Ikaris visita a tribo dos Eternos Polares, e é aprisionado por seu primo Druig, muito semelhante a Loki, que tendo acessos a registros históricos descobre que há uma arma que pode destruir os Celestiais e a pista para a localização está em Ikaris. Na 19ª e última edição, mostra Druig tomando posse da arma e Ikaris e o mago Sigmar tentando impedi-lo de usá-la. Quando as energias fogem ao controle, eles tem o auxílio do Celestial Ziran para contê-las. Assim termina a série The Eternals de Jack Kirby, deixando os Celestiais analisando a humanidade e retardando o julgamento para outros títulos.

O início das tramas lembra outras obras de Kirby, e no geral fica-se com a forte impressão que muitos personagens foram conceitos reaproveitados de Novos Deuses, em especial o deviante chamado de Rejeitado que é muito semelhante às tramas do personagem Orion, inclusive as tramas da família imperial de Lemúria (a cidade deviante) são muito semelhante às tramas existentes na Apokolips da série Novos Deuses.

A série no Brasil

Os Eternos foram publicados pela Bloch Editores na série do Capitão América que também trouxe o traço de Jack Kirby, mas é na Abril Jovem seu maior trajetória. Em julho de 1984, como parte de um conjunto de novas séries que a editora lançou em um curto espaço de tempo (Micronautas, Guerra nas Estrelas, Indiana Jones, Manto & Adaga) a Abril lançou Os Eternos em Superaventuras Marvel #25. Na edição seguinte lançou o número 2, na 33 o terceiro número que deu sequência até o sétimo em SAM #37. Retornou com a edição 8 em SAM #40, dando seqüência até a edição 12, que foi publicada em SAM #44. Na edição #48 de junho de 1986 (dois anos depois do início da trama), a Editora Abril publicou a 13ª edição, que encerrou prometendo o retorno em breve com um confronto entre Ikaris e Hulk, que nunca veio. Restam 7 tramas inéditas.

Kirby foi derrotado por textos mais condizentes com o mercado, já que na época Superaventuras Marvel publicava The Uncanny X-Men de Chris Claremont & Dave Cockrum, Demolidor de Frank Miller & Klaus Jason e Tropa Alfa de John Byrne, mais relevantes para a cronologia e necessitavam de espaço. Certamente o erro foi da editora, que sabia que a série já havia terminado (em 1979, cinco anos antes do início da tradução) e deu espaço para a trama.

Temos que ser sinceros: não se pode culpar a Abril. A trama era parada e sofria do mal constante das tramas de Kirby: diálogos ruins e plot confuso e que não progredia durante a série. Depois das treze edições publicadas já conhecíamos bem os Eternos, mas nada de concreto sobre os objetivos dos Celestiais. Note que assim como a trama dos Novos Deuses na DC Comics, a saga dos Eternos não teve um “fim formal” nas mãos do autor, deixando para outros autores a conclusão das tramas. Além da conclusão, nas tramas de Thor entre os números 280 a 300, com Roy Thomas, os Celestiais foram de grande importância na fase de Tom DeFalco e Ron Frenz, bastante calcada nos conceitos de Jack Kirby. Na edição 424 da série The Mighty Thor (Superaventuras Marvel #147) é possível ver o nascimento de um “deus do espaço”.

E o Universo Marvel?

A série que originalmente foi publicada em 19 edições e um anual, passava à margem do Universo Marvel, já que Jack Kirby nunca quis a fusão entre os universos. Os agentes da S.H.I.E.L.D. na edição 6 são uma exceção à regra, e certamente a presença do Incrível Hulk nas edições 14 e 15 era uma tentativa de aproximação, assim como uma brincadeira com o Coisa. Mas o Hulk era apenas um robô e o Coisa uma pessoa que teve os átomos alterados por Sersi. Anos depois este robô foi usado pelo Dr. Destino na fase do Sr. Tira-Teima (Fantastic Four #320 e The Incredible Hulk #350 de 1988, publicado pela Editora Abril em O Incrível Hulk #108 e #109 entre junho e julho de 1992).

Apesar de distanciar do Universo Marvel, Kirby se permitia a referencia a obras externas como 2001: Uma Odisséia no Espaço. Na obra de Arthur C. Clark há um “monolito negro” que aparecesse em momentos chaves da história humana. Kirby que havia feito a adaptação do livro/filme para a Marvel Comics usou o monólito, informando que foi uma criação dos Celestiais.

Com o passar dos anos os Eternos lentamente migraram para o universo padrão especialmente quando Roy Thomas entendeu que os conceitos eram bons e aproximou os personagens do universo padrão na revista do Thor, onde eles enfrentam seus criadores e são reduzidos a um pequeno grupo. Nesta fase como parte de um plano iniciado na época da 3ª Expedição, Odin conclui a confecção do Destruidor, que teria poder para fazer frente aos Celestiais e chega a dar a ele a sua espada e aumentá-lo de tamanho. Durante este conflito Zuras morre, e somente com a intervenção de Gaia, o espírito da Terra, que oferece 12 homens e mulheres para provar a Arishem que seu experimento – a humanidade – deu certo e merece viver. Este grupo de pessoas ficou conhecido como “Jovens Deuses” e teve uma breve participação em um anual do Homem-Aranha durante a “Guerra Evolucionária”.

Ajustes cronológicos posteriores mostraram que os monstros tão comuns na fase “Atlas Comics” da Marvel (como Gorgilla, Grottu, Gigantus, Giganto, Tricephalous, entre outros) eram mutantes deviantes como Karkas, e que hoje vivem na Ilha Toupeira.

Em What if… #25 (1980) publicada por aqui em Capitão América #135 (agosto/1990), Mark Gruenwald aproveitou os conceitos usados por Jim Starlin em Capitão Marvel e fundiu os deuses que foram para Saturno com os Eternos, distanciando o Alars, o pai de Thanos dos olimpianos das séries Os Campeões, Hércules – Príncipe do Poder, Os Vingadores e Thor. Logo após “Guerras Secretas”, Sersi reaparece e convida seu “primo” Starfox (o Eros da série do Capitão Marvel, que na época era membro dos Vingadores) para uma união com a Unimente. Durante o evento “Inferno”, Walt Simonson trouxe de volta o eterno banido, Gilgamesh (saiu aqui em Capitão América #161 de outubro de 1992).

Sersi retornaria em Avengers #308 já na época da reformulação que John Byrne promoveu nas equipes. Mas certamente a saga mais significativa foi a Fase de Proctor e seus coletores, logo após a “Operação: Tempestade Galáctica”, quando havia um triângulo amoroso na equipe entre Sersi, o Cavaleiro Negro e Crystalis dos Inumanos. Uma longa trama revela um amante da eterna de outra realidade como vilão. Isto foi publicado em Avengers #355 a 363, e retomado nos números #372 a 375. Esta fase que lembrava o “padrão mutante” do início dos anos 1990, teve argumento de Bob Harras e arte de Steve Epting & Tom Palmer. Arishem ainda retornaria para novamente julgar a Terra, mas Franklin Richards consegue iniciar a trama que trouxe de volta os heróis “mortos” durante o “Massacre: Marvel”. Por sinal na história alternativa “Terra X”, há uma ligação muito forte com os Celestiais e Franklin.

Não podemos esquecer que mais recentemente Apocalypse (vilão dos X-Men), que já tinha usado uma nave dos Celestiais como base, usou os deviantes para seus planos e Neil Gaiman escreveu para John Romita Jr. desenhar uma excelente série, já publicada no Brasil, na época da “Guerra Civil”.


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