100 Anos de Jack Kirby: Os Novos Deuses

Em 1971, Jack Kirby foi contratado a peso de ouro para produzir material para a DC Comics, e a divina concorrente viu o surgimento de uma série de personagens que enriqueceram seu multiverso, ainda que não trabalhassem em conjunto com os personagens tradicionais da editora. O ponto central desta parceria foi a saga do Quarto Mundo, composta por quatro títulos: New Gods, Mister Miracle, Forever People e como extra, a série Jimmy Olsen, onde a lenda reza que Kirby, ao ser imposto a cláusula de assumir um título tradicional da DC, pediu aquele que vendesse menos.

A grande trama de Novos Deuses é que há no planeta Terra pistas sobre uma fórmula chamada Equação Anti-Vida e Darkseid, o principal novo deus do mal, a deseja para fins próprios. Orion, filho de Darkseid, mas criado pelo benigno Pai Celestial, é o nêmese de seu pai e está destinado a matá-lo.

Originalmente, New Gods foi publicada em série bimestral com onze números (março de 1972 a novembro de 1973). Em 1984, a DC Comics reeditou a série original em The New Gods, minissérie de 6 volumes, publicando duas aventuras por edição, e na sexta publicou uma aventura inédita de Jack Kirby, que encaminharia a trama para a graphic novel The Hunger Dogs.

NO BRASIL

O segundo volume de New Gods foi publicado no Brasil pela Ópera Graphica em preto-e-branco e editado pelo lendário autor e editor Roberto Guedes, que recentemente escreveu uma biografia de Jack Kirby. Hunger Dogs ainda está inédita no Brasil. A série da Ópera é baseada em uma série de reprints em preto-e-branco da série O Quarto Mundo, publicadas no início dos anos 2000 nos EUA.

No Brasil, os Novos Deuses aparecem em um especial do Flash da editora EBAL. Explico: em 1979, a editora norte-americana em plena “Implosão DC”, desvia novas séries e retomadas de séries antigas para Adventure Comics. Naquele ano, a editora havia contratado Gerry Conway e Steve Englehard (este último com Marshall Rogers), para dar um fim formal para as séries de Kirby. O projeto falhou, mas teve sobrevida suficiente para criar cenário para um encontro de verão da Liga da Justiça com a Sociedade da Justiça, o que criou um pano de fundo para dois projetos importantes: uma série dos Superamigos e uma série de brinquedos. A EBAL, que estava publicando o material de Adventure Comics (Flash, Homem Borracha, Astro), decidiu fazer um álbum (quase) gigante para o fim da trama de Os Novos Deuses em Adventure Comics, mas não há explicações nenhuma sobre o contexto da série e a tradução peca bastante. Darkseid é chamado de Manto Negro!

A TRAMA

Após o final de uma era de deuses, uma alusão pouco sutil ao Ragnarok nas tramas de O Poderoso Thor (da Marvel), surgem os Novos Deuses que são divididos entre Nova Gênese (os bons) e Apokolips (os maus). (Às vezes o texto refere-se a este panteão como O Quarto Mundo, um termo que surgiu na publicidade das séries e só depois foi incorporado às histórias.) O guerreiro Orion, através do Pai Celestial (líder do panteão de deuses bons) recebe da Fonte a missão de vir à Terra, onde resgatará humanos que inconscientemente tem informações sobre a localização da fórmula.

A trama logo esquece destes humanos e passa a apresentar grandiosas batalhas em deliciosas páginas de quadro único. Somos apresentados a uma galeria única de personagens: Magtron, o deus da velocidade e beleza; Desaad, um deus cientista maligno, ardiloso; Kalibak, um outro filho de Darkseid; Metron, um deus da ciência que flutua de forma neutra na série, servindo ao lado que pode lhe fornecer informações; além do Sargento Turpin, um humano pego no meio deste tiroteio.

Chama a atenção o combate com os Deep Six (edição 6), onde Orion enfrenta alguns demônios marinhos e a emblemática história “O Pacto” (na edição seguinte). A história entrava em sua metade e, depois de estabelecida as ligações humanas para a série, Kirby retorna para narrar as origens do conflito entre as raças. “O Pacto” conta as origens da guerra entre Nova Gênese e Apokolips e parte das maquinações de Darkseid para chegar ao poder, assim como a troca de crianças que resultou na paz. Darkseid entrega seu filho Orion para o Pai Celestial, e este entrega Scott Free, o futuro Senhor Milagre, para Darkseid e sua Vovó Bondade. Uma das melhores histórias da saga.

Anos depois, no meio da década de 1990, na série Jack Kirby’s Fourth World, John Byrne acrescentou vários detalhes interessantes deste período.

OS INSETOS

Kirby introduz um conceito interessante na oitava aventura: em Nova Gênese, insetos sapientes roubam alimentos dos Novos Deuses – e eles os tratam como praga, eliminando-os com inseticidas. Apesar de importantes no plano geral, Kirby não explorou a fundo todo o potencial e por quês desta nova comunidade, ainda que ficasse clara o preconceito em relação a estes seres.

Na trama, o grande feito dos insetos (visualmente muito semelhante a uma trama de Thor e os Argonautas da década anterior) é que Mantis de Apokolips usurpa o poder do líder da colônia de insetos para auxiliar na guerra entre deuses, enquanto o Forrageador (um novo deus criado por insetos) consegue ir para a Terra para fazer contato com Orion. Quando do ataque de Mantis à Terra usando o povo inseto logo temos os três novos deuses (Orion, Magtron e Forrageiro) enfrentando-os na Terra com o auxílio de Turpin, um sargento casca-grossa, reutilizado anos depois por Bruce Timm na série Superman Adventures. Ali, Turpin tinha as feições de… Kirby!

A CONCLUSÃO

Na 11ª edição, Kalibak foge e enfrenta Magtron e Orion em um duelo de morte. Ou seja, dezenas de páginas de luta típicas de Kirby. Desconfiando da súbita força de Kalibak, Darkseid, que assiste a luta, descobre que Desaad estava fortalecendo o seu filho. Decide então matar o cientista. O Corredor Negro leva Kalibak, quando este é derrotado por Orion.

Este é o fim original da saga, deixando-a inconclusa.

Na versão de 1984, surge a 12ª história, que anula da fase de Gerry Conway no final dos anos 1970. Nesta 12ª história, Orion invade Armagetto e cria a semente da revolta nos cães famintos contra os seus líderes. Darkseid ressuscita alguns mortos (Desaad, Kalibak, Mantis), mas eles retornam sem a essência da alma. A perseguição de Orion a Darkseid atravessa a história, até o momento final onde é criado um corte na trama que leva os leitores para a graphic novel Hunger Dogs.

O QUE FICA?

Fica-se com a impressão que a saga original publicada em 1971 é superior ao material adicional de 1984 – e mesmo a arte de Kirby parece inferior. O autor criou a ideia para originalmente ser uma série limitada, um conceito estranho à época.

A ideia era apresentar os personagens, o conflito e criar um final “apokoliptíco” em pouco tempo, seguindo para um Quinto Mundo; mas Kirby perde o foco ao final do primeiro ano e passa a produzir histórias que acrescentam pouco à trama. Novos Deuses é o título que menos sofre com isso, já que temos excelentes histórias neste período; as edições 6, 7, 8, 9 e 10 são acima da média e provam que Kirby sabia fazer histórias de ação. Mas as vendas não corresponderam e o Rei foi levado para outros projetos como O Demônio e Kamandi.

Kirby só retornaria aos Novos Deuses em 1984, quando refez a 12ª história para o reprint daquele ano e no ano seguinte fez Hunger Dogs, ainda que perifericamente tenha feito a série Superpowers, que apresentava a Liga da Justiça contra Darkseid em uma aventura fora da continuidade criada para aproveitar o sucesso do desenho animado Superamigos e uma linha de brinquedos Superpowers – que foi lançada aqui no Brasil.

Pela falta de brilho para sua conclusão da história, muitos autores continuaram a escrever uma conclusão ou revisitar as tramas. Autores do calibre de Jim Starlin em Odisseia Cósmica (um clássico com arte de Mike Mignola) e anos depois em A Morte dos Novos Deuses (uma tolice); John Byrne em Novos Deuses vol. 3 e O Quarto Mundo de Jack Kirby; Walt Simonson em Orion e Grant Morrison em Crise Final – aqui um fim digno, mas confuso demais para o leitor padrão de quadrinhos norte-americano entender.

Recentemente a Panini fez uma votação em seu hotsite DC perguntando aos leitores qual material do Rei eles gostariam de ver. A Saga do Quarto Mundo ganhou com ampla margem! Espero que se concretize!


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