Gibis que precisam ser publicados no Brasil: Black Hammer

 

Não sou o maior fã do Jeff Lemire. Na verdade, nem fã dele eu sou! Até pouco tempo atrás (ontem), eu o confundia com o Charles Soule (não pergunte porquê). Sweet Tooth saiu por aqui completinho e eu via aquelas capas e não tinha a menor vontade ler aquilo – mesmo com os elogios de uns poucos amigos que acompanhavam. Ele fez um caminhão de coisas na DC (Arqueiro Verde, Homem-Animal, Liga da Justiça Dark entre outros) e, do que li, não vi nada que prendesse minha atenção ao fim da leitura. De repente, ele se mudou de mala e cuia para a Marvel e meu interesse no seu trabalho seguiu naquela mesma toada preguiçosa e desinteressada.

Eis que num belo dia, estou vagando pelo Twitter e me deparo com essa imagem abaixo. É a capa da segunda edição de Black Hammer, lançada no meio do ano passado. Não fazia a menor ideia do que era aquilo, mas fiquei automaticamente maluco para conhecer o material, nesses estalos sem nexo que nos dominam quando menos esperamos.

Nem quis saber do que se tratava a história: catei logo o primeiro volume (“Secret Origin”, que compila as seis primeiras edições) e li de uma sentada. Simplesmente não conseguia largar o gibi! A história, os desenhos (e as capas) do Dean Ormston (lembra dele em Lucifer do Mike Carey? Pois é, eu também não), as lindas cores do Dave Stewart; simplesmente tudo se encaixa em Black Hammer. Se você gosta de Quarteto Fantástico e curte ficção científica, vai amar isso daqui.

Lemire pegou a premissa básica da família primordial da Marvel para compor seu Black Hammer: é um gibi ultracolorido, com personagens esquisitos de poderes fantásticos e que vivem em família, mas estão sempre brigando. Na verdade, eles são forçados a viver em família. O grupo vivia em Spiral City, onde eram os heróis por lá, numa momento bem diferente de hoje: a Era de Ouro. Dez anos atrás, ao enfrentar um inimigo poderoso, terminam caindo numa outra realidade e estão impossibilitados de voltar pra casa.

O grupo é formado pelo líder Abraham Slam, Golden Gail (a queridinha da América, uma mulher de 59 anos presa num corpo de uma garotinha de 9), o esquisitíssimo Coronel Weird (único capaz de visitar a Parazone, um conceito absurdamente foda e, ao mesmo tempo, surreal), a sombria Madame Dragonfly (uma bruxa que mete medo de verdade), o marciano transmorfo BarbalienTalky-Walky (um robô faz-tudo). Além deles, o campeão das ruas, o incrível Black Hammer, que morreu enfrentando esse poderoso inimigo (uma espécie de Darkseid na roupa do Galactus).

Em todos eles, você encontra referências óbvias a outros personagens consagrados. A todo momento, por meio de flashbacks, Lemire conta um pouco de como era a vida deles até daquele fatídico dia, numa bela homenagem aos quadrinhos antes dos anos 1970. No entanto, por trás de toda essa homenagem de alguém que ama essa indústria, ele conta uma história que te prende, cria e desenvolve conceitos para nenhum fã de ficção científica colocar defeito, escreve diálogos empolgantes e constrói a interação do grupo em si e das pessoas ao redor de uma forma muito crível. (Além disso, desenha as capas variantes, nesse traço meio doido dele.)

Nesse primeiro volume, você vai conhecendo um pouco mais de cada um dos heróis – um por edição – e fica sabendo como diabos eles foram parar nessa cidadezinha no meio do nada, que também tem lá seus mistérios. Em tempos de reboots, leitores reclamando nas redes sociais porque mexeram “no meu personagem”, longas discussões acaloradas sobre porcaria nenhuma e histórias que parecem estar dando voltas em si mesmas, Black Hammer é um sopro, uma ventania, um furação de criatividade numa mídia que, para muitos, parece esgotada.


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