E vamos de distribuição novamente

Tem um tempo que falamos da distribuição de revistas aqui. Hoje vamos voltar ao tema. Há quase 3 anos comentamos aqui sobre o novo sistema de distribuição de revistas da Panini, que saiu da aba da Dinap (Total Express) para um sistema próprio, contratando distribuidoras locais para fazer suas revistas chegarem aos pontos de vendas, majoritariamente a popular banca de jornal. Muita coisa aconteceu desde então, até uma pandemia.

Há anos estamos percebendo uma diminuição do mercado de publicações em geral, e é claro que os quadrinhos não ficaram de fora. Surpreendentemente, ao menos em bancas de revistas, esse foi um dos segmentos que sofreram menos. Não se iludam, as vendas caíram muito, mas comparando com outros tipos de publicação, essas foram as menos afetadas. Com a pandemia de COVID-19 isso ficou ainda mais evidente. Além de não ser um comércio essencial e ser um dos últimos segmentos a voltar a abrir as portas, vários dos donos de bancas são idosos e fazem parte do grupo de risco, e boa parte deles não reabriram seus comércios, que eram usados como complemento de renda e também como atividade extra muitas vezes. As bancas que conseguiram sobreviver e reabriram as portas tiveram um outro problema: a falta de dinheiro da população para gastar com revistas. Muitas pessoas perderam os empregos ou tiveram a renda reduzida, e entre comprar comida e revistas, adivinha o que fica de fora?

Com isso, houve aumento da inadimplência das bancas com as distribuidoras, por consequência, aumento da inadimplência das distribuidoras com as editoras, que ou deixam de mandar as revistas para serem distribuídas ou simplesmente deixam de colocar suas publicações em bancas definitivamente.

Em Alagoas, a distribuidora que por 39 anos representava a Dinap no estado vai deixar de prestar esse serviço. Segundo comunicado divulgado pela empresa aos jornaleiros, a interrupção da parceria foi por iniciativa da própria Dinap e não foi informado o motivo dessa quebra. Por enquanto, só podemos especular. Com isso, essa distribuidora local ficou apenas com o contrato com a Panini, mas até quando?

Falando com lojistas locais, eles não acreditam que a Alix (a distribuidora local) consiga manter esse contrato com a Panini por muito tempo, pois tem uma estrutura muito grande pra um volume bem menor de publicações da editora italiana. Além disso, a quantidade de revistas que são enviadas para Alagoas é cada vez menor, apesar de uma demanda pequena, mas constante. O exemplo mais recente disso foi a revista X-Men #01, com o início da aclamada fase do escritor Jonathan Hickman no universo mutante. A revista veio para meia-dúzia de pontos de venda e na sua maioria foi apenas um exemplar. Não teve para quem quis. E mesmo que o jornaleiro solicitasse mais da distribuidora, ela não tinha estoque para essa venda. A alternativa é recorrer ao site da própria Panini ou a Amazon. Mas até isso tem seus contras. No caso da compra no site da Panini, o problema é o frete. Só acima de pedidos de determinado valor o frete é gratuito. Você até pode acumular o que gostaria de pedir, mas se for um título muito procurado, corre o risco de ficar sem. No caso da Amazon, a desvantagem é ela não comercializar revistas mensais. Acredito que em algum momento vá fazer isso, já que tem um tempo que começou a vender encadernados de capa cartão e também disponibilizar em pré-venda, com a vantagem de que a revista só é cobrada quando enviada, e se você for assinante Prime o frete é grátis, independente do valor da compra.

Só vantagens no caso da Amazon, né? Errado! Por algum motivo que ainda não entendi, eles só enviam a revista comprada em pré-venda em média 3 semanas depois que as revistas chegam em banca. Para quem tem pressa em ler os gibis, essa não é uma alternativa válida. Além de você correr o risco de acontecer algum problema com o envio e o gibi demorar ainda mais pra chegar. É raro, mas acontece até com a Amazon.

E essa situação complicada não é só aqui em Alagoas (ou no Brasil). Devido à pandemia várias comic shops fecharam definitivamente nos EUA. Durante o período mais pesado da quarentena, a Diamond, que distribui as revistas das principais editoras em todo o território estadunidense, parou com a distribuição. Com isso, ficamos algumas semanas sem revistas novas por lá. Como consequência, a DC Comics parou de utilizar o serviço da Diamond e pegou distribuidoras menores para fazer esse serviço, num movimento parecido com o que a Panini fez aqui. E além disso, toda a indústria do entretenimento foi afetada, o que acarretou em diversas demissões no conglomerado Time-Warner, o que afetou a DC imensamente, gerando boatos inclusive de que as mensais seriam restritas aos medalhões e edições digitais, enquanto o restante sairia em formato de graphic novels e TPBs.

Será esse o destino das publicações lá fora? E aqui no Brasil? Qual seria a alternativa para os problemas de distribuição, já que mesmo a venda online apresenta alguns problemas? Não sabemos a resposta pra essas perguntas ainda, já que tudo está bastante incerto num mundo pós-pandemia. A única certeza que temos é que infelizmente esse será um produto cada vez mais restrito e de nicho, com edições cada vez mais caras e sem renovação de público, já que as bancas parecem ser cada vez mais um ponto de venda ultrapassado, infelizmente.


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