Bendis no Superman: um balanço

Quando Brian Michael Bendis anunciou que não apenas estava deixando a Marvel – após mais de duas décadas de serviços prestados -, mas também estava indo pra sua maior rival, os leitores de gibis ficaram em polvorosa. Fizemos aquilo que mais amamos: especulamos loucamente. Os mais afoitos cravaram: ele vai assumir o Batman. Os mais esperançosos o queriam na Liga da Justiça (e a esperança finalmente venceu), após longa e aclamada (aceite) passagem pelos Vingadores. Os analistas (ou que se acham) pensaram em mil e uma possibilidades, fazendo ligações com outros trabalho do autor na Marvel e seu estilo de escrita.

Poucos pensaram no Superman. Não parecia o estilo de Bendis.

Além disso, as outrora “revistas de aço” estavam indo muito bem, obrigado: se não apresentavam qualquer inovação radical, nada mirabolante, mudanças drásticas de status quo ou coisas do tipo – além do fato dele ter um filho -, entregavam todo mês boas histórias, divertidas como tem que ser. Dan Jurgens em Action Comics puxava o lado aventuresco e heroico do Azulão, relembrando seus bons momentos na década de 1990. Por seu turno, Peter Tomasi nos cativava em Superman com uma bela relação familiar, desenvolvendo sem muita pressa (e de forma deliciosa, pelo menos pra mim) o núcleo caseiro dos Kent, em especial o filho do casal, Jon Kent, mas dando algum espaço para Lois Lane, um pouco mais afastada do cotidiano do Planeta Diário e focada em seus projetos pessoais.

Na milésima edição de Action Comics, tivemos um gostinho da nova fase: numa história curtíssima e muito bem desenhada, Bendis chegava com o pé na porta, apresentando um novo vilão ligado diretamente a origem de Kal-El e a destruição de Krypton. Rogol Zaar, um monstrengo no melhor estilo Apocalypse, surgiu ensandecido e desejava apenas vingar a morte de milhares de kryptonianos, supostamente mortos por culpa do último filho do planeta. Bendis não estava para brincadeiras e começou justamente mexendo na origem do herói, inserindo um elemento que muitos consideravam desnecessário. Assumindo as duas “revistas de aço”, o escritor prometeu duas linhas narrativas: numa seguiria esse lado heroico e aventureiro, onde se desenrolaria a querela com Rogol Zagar, e na outra o foco seria mais em Clark Kent e em seu lado jornalista.

E para isso, resolveu ajustar algumas novidades e deixar seu próprio caminho livre. O misterioso Oz, após se relevar como sendo Jor-El (um mistério arrastadíssimo e muito besta), apareceu diante do casal querendo resgatar seus anos como avô e leva Jon pelo cosmos, pois ele precisava aprender que o universo é imenso antes de assumir o legado do pai. Lois resolve acompanhar o filhote e fica, por um curto período de tempo, sumida. Com isso, abriu-se espaço para ele mesmo assumir e revitalizar a Legião dos Super-Heróis, num arco de imbróglio intergaláctico que, no final, resulta no embrião do que seria a Legião, baseada numa ideia do Jon (ou seja, o “Superboy” segue como inspiração no século XXX. Confesse, melhor do que o Universo Compacto).

E de bom? Bem, o foco em Clark, Lois e no Planeta Diário ficou bem aquém do eu esperava. Expectativa segue sendo a mãe das decepções. Sabe aqueles roteiros urbanos dos tempos do Demolidor? Ficamos mais tempo lendo histórias da colunista social do jornal querendo saber porque raios Lois estava beijando o Superman e traindo Clark. E olha que não faltaram mistérios em Metrópolis para os melhores repórteres investigativos do mundo trabalharem. A parte aventuresca foi melhor: meio que seguiu a linha do que o Jurgens já vinha fazendo, só que com mais arcos e brigas pelo cosmo, com a Zona Fantasma aparecendo arco sim, arco também. Então tome uma variedade sem fim de alienígenas malucos, superfortes e com sangue nos olhos. Porradaria honesta no espaço? Gostamos. E ficou nisso. Agora Bendis vai lá salvar a Liga da Justiça e, mesmo que ele não faça nada, ainda assim será melhor do que o “trabalho” do Scott Snyder.

Nem foi apenas questão de expectativa. Mas pelo estardalhaço feito – a ponto de ofuscar tudo mais que a editora fez (e olha que não faltaram talentos de peso lançando coisa pela DC) – e pelo resultado entregue, poderíamos seguir com Jurgens e Tomasi numa boa. Aliás, ao invés de uma gibi meia boca da Legião, talvez o direcionamento que o Tomasi vinha dando pro Jon rendesse frutos bem mais interessantes.

Foi uma leitura ruim? Longe disso. O Superman do Bendis é, acima de tudo, um gibi muito divertido.


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