E a Abril?

Após a onda de manifestações ocorridas em 2013, houve uma espécie de “surto de politização” no Brasil, com parte da população discutindo os problemas cotidianos e a política nacional. As eleições de 2014 foram acirradas e o processo aumentou no período entre os dois pleitos presidenciais. “O gigante acordou”. Será? O que observo mais é um eterno Fla-Flu, com gente torcendo por políticos dos dois lados, discussões rasteiras e acusações das mais descabidas, com gente sendo taxado de reacionário ou comunista apenas por discordar de uma opinião – e sem se debater absolutamente nada. (Claro, há exceções. Raras, mas há.) Como um novo governo iniciando em janeiro, desde o resultado final das eleições surgiu uma expressão que mostra bem o nível de “politização” que uma parte de nossa população expressa nas redes sociais: e o Lula?

Foi pensando nisso que surgiu esse meme fantástico aí em cima. Panini vem numa sequência surreal de erros em seu material, inclusive em encadernados com preços nem sempre atrativos. Balões em branco ou diagramados incorretamente, erros de digitação ou tradução, páginas trocadas, enfim, várias coisas que quase diariamente vemos nas redes sociais, cujo ápice foi o envolvimento de Neil Gaiman após reclamações dos leitores. Discussões acaloradas entre os leitores, com um silêncio absurdo dos editores. Exceto nesse caso de Sandman e num vídeo num evento onde o editor-chefe da Panini falou sobre os erros até aquele momento.

Inúmeros sites, blogs e canais geeks estão mais preocupados com os filmes da Marvel e da DC. Os que ainda falam sobre quadrinhos ou estão calados ou tentam apaziguar de alguma forma os erros editoriais. Entre os leitores/fãs/consumidores, há muitos que realmente se prestam ao papel de defender tais absurdos, justamente usando como “argumento” a trajetória editoral da Abril Jovem, com o conhecido histórico de cortes de páginas, traduções inexplicáveis, descontinuidade de coleção e tudo mais que já sabemos de cor e salteado. Não acredito que seja necessário falar mais sobre o quão idiota é esse argumento. Aliás, nem podemos chamar isso de argumento. Podemos parar no básico e óbvio: que diabo uma coisa tem a ver com a outra? Então, as porcarias que a Abril Jovem fez ao longo de 20 anos justificam as merdas que a Panini vem fazendo, após quase 20 anos de publicações? Estamos comparando erros? Os caras sequer conseguem colocar seus produtos nos pontos de venda na data divulgada por eles mesmos! Isso quando divulgam!

De fato, igualmente é óbvio que, noves fora, a Panini vem fazendo um trabalho superior ao da Abril, independente da conjuntura em que vivemos e do avanço da internet e das redes sociais. Expansão da linha, formato americano desde o início, regularidade nas publicações, um bom trabalho com a Vertigo entre outras boas coisas. No entanto, isso não apazígua os equívocos editoriais que estamos vendo atualmente. Ao contrário: a busca deveria ser sempre por melhorias. O pior, a meu ver, é que boa parte dos erros são coisas pueris, ou, no dizer já famoso do editor, “não são grotescos”. E não são mesmo! O que gera ainda mais raiva. Como você consegue soltar uma publicação em quadrinhos com balões de fala em branco? Erros de digitação dos mais simplórios? Não há revisor? O trabalho do editor não é esse?

E o nosso comportamento, enquanto consumidores? Não é possível que chegamos ao ponto de termos “torcida de editora”. Continuamos agindo de maneira pueril, como fãs deslumbrados que precisam agradecer todos os dias por uma editora publicar no Brasil nossos gibizinhos preferidos. Como se não fosse um serviço privado, de uma empresa que visa o lucro e, por não ter concorrência alguma, age de uma maneira amadora e injustificável. Precisamos nos posicionar como consumidores! Editoras não são ONGs. E os equívocos do passado não resguardam os do presente. Mas e a Abril? Nem quadrinhos publica mais.


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