A culpa entre o fã e o consumidor

Com essa explosão das redes sociais, uma faceta aparentemente “desconhecida” dos nerds veio à tona: tome machismo, misoginia, homofobia e até mesmo racismo comendo solto, dito por pessoas que cresceram lendo X-Men, Superman e Homem-Aranha e, pelo visto, não entenderam nada. Ou não absorveram nada. No entanto, você deve ter lido muita coisa sobre isso nos últimos tempos dos dois lados, e não pretendo mexer nisso aqui. Minha ideia é discutir outros pontos, que afetam a todos nós diariamente (inclusive nas redes sociais).

Faz um certo tempo que despertei para o fato de que o fã de quadrinhos, o cara que compra gibi na banca, em livraria, coleciona, conversa sobre com amigos e conhecidos, vê o filme, compra a camisa e tudo mais, é visto pelo mercado de quadrinhos exatamente como isso: fã. Quando você vai na internet reclamar que o preço daquele encadernado capa dura está muito alto, sempre aparece alguém para lembrá-lo que gibi é algo supérfluo, você não é obrigado a comprar (ou a “consumir esse conteúdo”, para usar uma expressão que está mais em voga hoje em dia do que “empreender”). Além disso – e lá vem o pulo do gato -, as editoras são empresas e não ONGs. Elas vendem e precisam pagar seus custos e ainda lucrar com isso. Normal.

No entanto, se as editoras são empresas, por que automaticamente eu não viro um consumidor? (E não consumidor de conteúdo, que fique claro.) Por que continuo sendo apenas um “fã”? Porque na medida em que sou um fã, passo a ser tratado como um reclamão, que nunca está contente, que nada presta e pareço ser uma criatura maléfica que fica bolando planos para destruir tal e tal editora, visto por mim como grandes agentes do mal.

Uma saga de culpas

Reclamar do aumento abusivo da gasolina pode. Dos gibis? Não. Porque gibi é supérfluo. E não posso reclamar da qualidade do papel, daquela capa que amassou, das páginas que descolaram, do atraso no lançamento, da descontinuidade. Tudo isso é justificado pela empresa, e toda reclamação vira coisa de “fã”. Se eles não são ONGs, por que parece que vivo doando meu dinheiro para eles, pois não posso cobrar por qualidade? Entendo que o nosso mercado não comporta, por exemplo, a mesma história em dois formatos simultâneos (capa dura e capa cartão, para ficarmos no mais óbvio). Lembro de caso recente da Ms. Marvel, que saiu aqui nos dois formatos e só um resistiu à “fraqueza” do nosso capitalismo (e você já sabe: sobreviveu o mais caro, capa dura). De uma forma ou de outra, é uma maneira de descontinuar a minha coleção (eu comprava o capa cartonada). “Ah, mas você vai terminar de ler a história do mesmo jeito, independente do formato”. Verdade. Contra fatos, não há argumentos.

Porém, vamos supor que eu resolva reclamar dessa bobagem. Mando e-mail? Tento Facebook ou Twitter? No próprio site das editoras, é possível ter respostas dos responsáveis. Por outro lado, ao invés de reclamar, digamos que eu resolva querer me informar do que vem por aí? Sou fã, mas também sou consumidor e quero saber como irei gastar meu suado dinheiro, talvez me programar. Exceto alguns sites especializados (e que, segundo os próprios, penam para conseguir um checklist atualizado), há momentos que nos informamos por meio das pré-vendas das grandes livrarias virtuais. Isso que nem vou entrar no mérito dos atrasos mensais das revistas… mensais!

E após reclamar, o que acontece? Sou taxado de sommelier de lombada! Eu pago (caro, na maioria dos casos) pelo material, acho que a qualidade do papel está aquém, que a lombada não está de acordo (é uma coleção, afinal) e outras bobagens e ainda sou ridicularizado pelos responsáveis pela publicação. Afinal, sou apenas um fã chato. “Nossa, pelamor de Deus! Que besteira reclamar da lombada, porque o número de uma edição não está na mesma linha da edição seguinte”. Olha, concordo, é uma grande besteira. Mas você me vende material caro, em muitos casos com a pecha de ser de luxo, e não quer que eu exija qualidade? Por que sou fã? Parece até que a culpa é minha, por ser chato.

Mas sim, a culpa é minha. Recentemente voltou o debate acerca dos preços praticados pela Amazon (e ninguém cita a Saraiva, que faz promoções melhores que a concorrente norte-americana em várias ocasiões). Para se cobrar tão “pouco” por um encadernado capa dura de 180 páginas, eles devem estar pressionando as editoras. E aí o que as editoras fazem para não perder esse ponto de venda (talvez o maior nos dias atuais)? Aumentam o preço do produto. E no final, vemos muitos editores e especialistas afirmando que a culpa é nossa (minha e sua, os “fãs”), porque compramos os nossos quadrinhos nessas promoções. Estaríamos, assim, enterrando as bancas, fechando pequenas livrarias e sendo os principais responsáveis pelo aumento excessivo dos preços dos encadernados, pois não deixamos de “consumir”. As editoras aumentam o preço para garantir a promoção da livraria e a culpa é nossa que compramos! E se não compramos, a culpa também é nossa pela descontinuidade do título/coleção.

Mea culpa

Mas, claro, nós fãs/consumidores temos nossa parcela de culpa. Em muitos casos, agimos como verdadeiros fãs de editoras, alimentando essa ideia já bem sedimentada entre o meio. Torcemos por uma editora, comemoramos número de vendas, bilheteria de filmes, como se fosse uma vitória nossa. Em muitos casos, perdemos a compostura com editores e outros responsáveis, seja para falar mal do trabalho alheio, seja para elogiar como se fossem deuses intocáveis.

Na maioria das vezes, não nos posicionamos como consumidores. Sim, exigimos qualidade, lombada perfeita e que a coleção vá até o fim. Mas além disso? O que fazemos? E o que podemos fazer? Não foi minha intenção listar (mais) culpados, apontar o dedo e “pensar em fazer melhor”. No entanto, o debate precisa ser feito entre nós, leitores/fãs/consumidores. Não podemos ser tratados apenas como “reclamões” e sommeliers.

Não somos os responsáveis por erros editoriais de falta de informação e comunicação.

Cada um na sua estante.

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