Novos ares na estante

Passe o olho na sua estante ou para dentro do seu guarda-roupa e diga se você não vê uma enxurrada de lombadas com o logotipo da DC Comics e Marvel. É para todo lado, com umas Vertigo no meio, causando com sua fonte característica. Vendo com mais calma, quase não tem Dark Horse ou Image Comics, somente Devir ou Intrínseca, né? Ao contrário da Panini, eles colocam apenas sua marca (até mesmo na capa. Deve ser coisa de contrato). A Todavia lançou Bone completo e não faço ideia onde esse material saiu lá fora.

Olhei aqui e a minha estante é nessa toada descrita acima. (Aos poucos, lombadas com o símbolo da JBC, Planet Manga e até New Pop surgem no horizonte distante.)

No entanto, ano novo, vida nova. Como Maurício bem falou no 7 Jagunços, vamos dar um pouquinho mais de atenção a outras editoras? Como dito acima, Devir, Intrínseca e Geektopia volta e meia soltam algo da Image ou da Dark Horse. Claro, no tempo deles, porque nosso mercado parece ainda não comportar esses lançamentos “alternativos” (favor colocar mais aspas aí). A Panini publica algo aqui e acolá, mas perceba que só vão na boa, não dão tiro no escuro (MillarWorld, por exemplo). IDW e BOOM! Studios estão atraindo muito escritor e artista bom e com muita frequência. E os caras não deixam a peteca cair: soltam materiais muito, mas muito bons. Parece haver um movimento de “expansão”: não é apenas a Image que está atraindo essa galera, que agora fica livre das amarras editoriais das duas grandes e o melhor: além do controle criativo, controlam também os lucros. Você já viu algum gibi do Robert Kirkman que não pareça uma série de TV em quadrinhos? Coisa que Mark Millar já fazia semana sim, semana também bem antes do contrato com a Netflix.

Não sei se a Image mudou algo do contrato ou se outras editoras estão facilitando mais as coisas; uma coisa é certa: só temos a ganhar. A citada IDW, por exemplo, publicou muita coisa de licenciamento, tal qual a Dark Horse – lembre-se que conhecemos a editora pelos crossovers do Batman com Alien, Predador e sei lá mais quem, antes do Hellboy. Agora tem muita gente correndo para lá e a qualidade é indiscutível. Alguns exemplos que já falamos aqui: Kieron Gillen e Dan Mora com Once and Future (Rei Arthur volta aos nossos tempo, mas ele é um escroto demoníaco); Gillen anda solto, tem Die com arte da Stephanie Hans e que já saiu aqui (uma espécie de continuação de Caverna do Dragão) e o excelente The Wicked + The Divine, que também saiu aqui (deuses que são celebridades); Matt Fraction e Chip Zdarsky tem o ótimo Os Criminosos do Sexo, adivinha: lançado aqui. Já ouviu falar em Department of Thruth, de James Tynion IV (sim, do Batman) e Martin Simmonds? E We Only Find Them When They’re Dead, de Al Ewing e Simone Di Meo? Os dois são da BOOM! escritos por autores que estão na DC e Marvel nesse exato momento. A Dark Horse está com o selo Berger Books comandado pela lendário Karen Berger e tem coisa interessantíssimas por lá. A lista é interminável.

E por que se dar o trabalho de ir atrás desses materiais “obscuros” que saem aqui (quando saem) sem nenhum alarde? Listei alguns pontos que me atraem:

  1. Séries fechadas, às vezes curtas, de cinco ou seis partes;
  2. Não tem interligação com aquela saga que você não dá a mínima;
  3. Histórias que tratam de tudo, de coisas banais a assuntos mais pesados e tabus, além de releituras divertidíssimas;
  4. Novos personagens sem 80 anos de carga cronológica nas costas;
  5. Artistas que vão além, afinal, o trabalho é dele mesmo. Alguns se empolgam;
  6. Nenhum asterisco nos balões, mas nenhunzinho.

Em resumo, não larguei Marvel e DC. Não é essa a intensão. Sigo firme e forte todos os meses com Batman, com o Super-Homem do Bendis, com o Hulk do Al Ewing, o Thor do Donny Cates e por aí vai. A questão é que não existe somente isso. E nosso acesso não é mais limitado também somente a isso. Sai pouco coisa por aqui? Com certeza. E numa periodicidade que deixa qualquer um aflito. No entanto, ler quadrinhos digitalmente é uma realidade cada vez mais comum, em especial nesses tempos de dólar proibitivo. Todos os títulos citados estão a um clique de você. A mudança é bem profunda – mas não precisa ser definitiva.


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