Para onde vai Brian Michael Bendis?

Brian Michael Bendis se perdeu no Universo DC. É a única conclusão a que chegamos, depois de quatro anos vendo o roteirista ir de uma recepção calorosa a uma saída quase despercebida do primeiro escalão da editora de Superman, Batman e Mulher-Maravilha.

O que foi noticiado como um acontecimento bombástico em 2017, acabou perdendo cada vez mais relevância nos quatro anos seguintes. Após 17 anos na Marvel, onde conseguiu escalar até o topo da popularidade e influência entre os demais roteiristas, tornando-se onipresente com a soma de títulos que escreveu, franquias que direcionou e repercussões que provocou, o escritor nascido em Cleveland, Ohio, decidiu deixar a Casa das Ideias e seguir para sua maior concorrente, a DC Comics.

E tome aplausos de todos os lados: de quem não aguentava mais o careca escrevendo os personagens Marvel E de quem sempre sonhou em vê-lo escrevendo os personagens da DC. “Como isso pode ser possível?”, alguém que não acompanha regularmente as duas editoras se perguntaria, mas não é tão difícil assim de explicar. Bendis tornou-se um roteirista daqueles que é adorado, criticado, mas sem jamais gerar indiferença. O sujeito SABE. Sabe escrever bem, sabe criar polêmica, sabe chamar a atenção. Infelizmente, não sabe dizer “não”. Talvez aí esteja seu grande problema nas histórias da Marvel e da DC.

O REI DA MARVEL

O primeiro e maior exemplo, provavelmente, ocorreu em Dinastia M (House of M). Depois do impacto ruidoso criado pela dissolução dos Vingadores e a recriação da equipe na mensal Novos Vingadores, Bendis conseguiu fazer um primeiro ano interessante, com o mistério do tal motim que revelou algo podre na SHIELD, também a adição do Sentinela ao grupo e tudo se encaminhou para uma resolução do fio solto da mensal anterior: qual seria o destino de Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, pivô da controversa história que causou o fim da versão anterior dos Vingadores.

Bendis acabou sendo orientado pelo editorial a transformar o arco especial que planejou em algo mais. Um evento. Que inflou e se tornou um megaevento. Ele não soube dizer não e acabou pagando por isso. Por mais que tenha feito sucesso e seja uma saga que agrade a muitos leitores, House of M expôs falhas de Brian Bendis. A primeira, já citada, ter cedido e aumentado sua história para um nível que atendesse o editorial. A segunda, sua própria incapacidade de escrever algo “tradicional”, afinal, esse tipo de evento precisa seguir algumas convenções para agradar o público que curte eventos e por sua vez já é escolado após décadas de crossovers e megassagas e… Capisce?

Ele mesmo admitiu, em entrevistas da época, que não acertou a mão no ritmo que uma saga assim pedia. Mas o camarada estava ganhando cada vez mais força e as críticas não o fizeram reduzir a marcha. Até porque o final do evento teve um desfecho que se tornou clássico, com Wanda pronunciando o tal “CHEGA DE MUTANTES” (“No more mutants”). Isso, ninguém pode negar, se tornou um momento marcante na história da Marvel. Além, claro, de ter rendido muita história e saga e desdobramentos, até hoje em dia, vale ressaltar.

Mas aí veio mais de uma década de altos e baixos criativos de Bendis, que hoje podemos atribuir à tal incapacidade de dizer um “não” no momento em que era preciso. Obviamente, ele conseguiu criar uma inegável fase de sucesso pros Vingadores. Saga após saga, novas mensais, spin-offs, fases e eventos, pra quem gostava ou criticava, o anzol e a isca funcionaram. Havia quem acompanhava por gostar e quem seguia pra criticar, talvez até pra ver se melhorava em relação ao que desgostava.

Mas também é inegável que ele se alongou demais conduzindo os Vingadores. E tome encheção de linguiça, edições inteiras onde ficava evidente que o sujeito estava apenas enrolando os leitores, histórias que não faziam diferença se o leitor pulasse um mês e fosse pra edição seguinte. Os defeitos e vícios de Brian Bendis sempre estiveram sobre uma linha fininha, que ora serviam para cativar leitores que acreditavam estar vendo um roteiro genial, ora serviam como munição pros seus críticos – que ficavam irritados com o que consideravam uma pilantragem descarada.

O maior exemplo? Os monólogos intermináveis e circulares. Os diálogos que mais pareciam câmaras de eco. Há quem ame, há quem odeie. Mas ninguém que leu gibis do Bendis ficou indiferente a isso. Lá pelo final da sua passagem pela Marvel, vieram os constrangimentos pra valer.

Ele se viu obrigado a cometer a infame Guerra Civil II, onde usou todo seu arsenal de pilantragens. E cuja conclusão até hoje parece aquele tipo de história em que o cérebro da audiência adota um bloqueio em prol da sanidade. Você tenta lembrar, não consegue, aí comenta com outra pessoa que também não lembra direito, de repente recordam que o personagem pivô se tornou um peido cósmico e saiu flutuando, daí piedosamente seu cérebro vai lá e faz você esquecer de novo. Era um inumano mesmo? Era mutante? Quem era aquele coitado, afinal? O final da mensal do Infame Homem de Ferro, a mensal dos Defensores (Urbanos), o retorno de Tony Stark e James Rodhes… Tudo coisa preguiçosa e feita no automático, na inércia.

Como ele chegou a isso? Por não saber dizer não, é o que podemos concluir.

O PLEBEU DA DC

Mas a esperança foi renovada. O que ninguém acreditava, aconteceu. Brian Bendis encerrou a longa parceria com a Marvel e seguiu pra DC Comics. Quem sempre quis ver o sujeito escrevendo o Batman, usando como critério de avaliação o seu excelente run em Demolidor, comemorou. Aconteceu a segunda surpresa quando, ao invés de assumir alguma mensal do Morcego, ele foi anunciado pela DC como o próximo escritor do Superman, nas suas duas mensais. Houve certa lamentação, pois Peter Tomasi estava fazendo uma fase consistente em Superman, enquanto Dan Jurgens mantinha sua habitual competência de operário-padrão em Action Comics. Mas o peso da chegada de Bendis e as expectativas pelo que ele faria com o Homem de Aço conseguiram abafar as reclamações.

Talvez tenham sido esses dois aspectos, o peso da chegada e as expectativas, que resultaram em uma perda relativamente rápida de interesse e relevância, quando confrontados com o velho probleminha do “NÃO SABE DIZER NÃO”. Bendis começou empolgado, para o bem ou para o mal. Acertou completamente na abordagem e caracterização de Clark Kent E do Superman. Contou histórias onde o super-herói primordial dos gibis agia exatamente com as motivações e o caráter altruísta que fizeram dele referência cultural ao longo de décadas no inconsciente coletivo global. Brian Bendis realmente escreveu O Superman.

Mas, ao mesmo tempo, recorreu aos truques manjados e até desnecessários para gerar tramas e subtramas. Retcon sobre a destruição de Krypton, POLÊMICA! Inimigo feio, cruel e babão urrando, genérico até dizer chega, sendo revelado como o verdadeiro causador da tragédia do planeta natal de Kal-El e Kara Zor-El, ULTRAJE! Muita zoada para chamar a atenção do leitor menos criterioso. E, sim, pode discordar, mas essa é a verdade. Pegar as duas mensais do Superman e jogar nas mãos do Bendis pra ele contar boas histórias, mês após mês (e ele faria isso tranquilamente), não bastaria pra lançar as revistas no topo do ranking das vendas nos EUA. Uma parte considerável dos leitores não se satisfaz com isso, o que não satisfaz o editorial e a cúpula da DC Comics. Tem que criar oba-oba, gerar ansiedade, curiosidade, ódio e repercussão nas redes sociais.

Bendis poderia ter dito “não”. Mas foi lá e aceitou fazer um começo bombástico, porém condenado ao ostracismo ligeirinho. Duvida? Pois veja se tem alguém falando da tal trama do ataque genocida de Rogol Zaar ou, melhor ainda, se o próprio alien surtado tá valendo ao menos um pacote de Doritos na boca dos leitores.

Ao mesmo tempo, o autor recebeu uma franquia inteira para ser o curador. Um balaio de personagens e mensais com personagens adolescentes da DC. Reaproveitou o título Justiça Jovem, trouxe Ametista do limbo, criou a personagem Naomi, brincou com o Dial H for Hero, TROUXE DEFINITIVAMENTE OS SUPER-GÊMEOS PRO UNIVERSO PRINCIPAL! O cara realmente estava com uma moral daquelas. Fez uma minissérie divertida com o Morcego de Gotham, em Batman Universe.

O COMEÇO DO FIM

Estava indo tudo bem. Até que veio o primeiro evento e lá vamos nós com os erros se repetindo, na mesma ordem. As duas mensais do Superman estavam seguindo com uma qualidade considerável, com ação, mistérios, humor, bons diálogos, além de pequenos momentos preciosos, tipo Clark correndo para se desfazer das roupas em um beco, encontrando um garoto sentado lendo um gibi e, demonstrando que é o Superman, faz um gesto de confiança para o menino, expondo o uniforme e decolando para os céus. Se você não se emocionou com a tal cena, vá ler o Justiceiro ou o Conan e nem precisa continuar ESTE texto.

O tal “primeiro evento”, dessa nova fase Bendis? Começou promissor e logo afundou. O Evento Leviatã teve toda uma preparação instigante em Action Comics. A ideia era termos um Conspiração Janus 2.0 e se você não sabe do que se trata, lamento demais. Basta saber que a premissa é um grande conflito entre as várias facções de espionagem do universo DC. No caso da história de Bendis, a diferença foi que as facções foram caçadas e aparentemente destruídas por um só elemento, o tal do Leviatã.

Essa história por si só merece um texto próprio, então, para resumir, o problema todo foi que, pelo que vimos em Action Comics, se Bendis tivesse mantido a história ali, na mensal, era bem capaz de ter sido o arco honesto e divertido. Mas inventaram de fazer um evento com minissérie própria e nem mesmo a arte de Alex Maleev salvou o bagulho. Pior ainda, o grande vilão por trás de tudo não surpreendeu os leitores mais jovens, pois eles não faziam ideia de quem ele era, nem teve o impacto devido com leitores de longa data, pois o personagem estava fora do radar já fazia décadas. Podia ser o Detetive Chimp no lugar e não faria diferença. A gota d’água foi que a minissérie em seis partes podia ter sido contada em apenas duas edições tranquilamente. Aí teve o outro maledeto vício do Bendis ocorrendo: a enrolação. Foram edições inteiras de pilantragem pura, com personagens conversando miolo-de-pote enquanto nada acontecia até chegar na página final, com algum gancho mequetrefe que não dava em nada na edição seguinte.

Acabou e não disse pra que veio, continuando por inércia em outra minissérie, Xeque-Mate, também com arte do Maleev, ampliando e piorando tudo de ruim que teve na anterior. Uma perda de tempo tão medonha que já deve estar no mesmo patamar coletivo na mente dos leitores que o final de Guerra Civil II, aquela que o personagem… Qual era a do personagem mesmo? Acho que já falamos disso faz um tempinho.

Brian ainda fez outra ponte entre seus dois focos, Superman e heróis adolescentes, reinventando a Legião dos Super-Heróis, primeiro na mensal de Kal-El e depois em uma mensal própria da equipe, com arte magnífica de Ryan Sook, onde o melhor e o pior de Bendis foi escancarado novamente. Ele alternou, ao longo de 12 edições, entre o roteirista que soube respeitar os personagens e conceitos à perfeição e o roteirista que claramente estava perdidinho em algumas edições, despejando falatório inútil e atropelado, com fiapos de trama vergonhosos.

Daí pra frente, tudo foi desabando. Mais megassagas ruins foram empurradas pras mensais, com o tal Death Metal e O Ano dos Vilões OBRADOS por Scott Snyder, o Leviatã falsiê aparecendo e sumindo só pra aumentar a bagunça, as séries mensais adolescentes acabando uma a uma, a Legião dos Super-Heróis concluindo abruptamente na edição 12.

O maior indicativo de que as coisas não deram certo como todos esperavam, foi a não renovação do contrato de exclusividade de Bendis com a DC Comics. Na sequência dessa decisão, ele saiu das mensais do Superman, foi para Liga da Justiça escrever umas histórias totalmente sem sal e já anunciou que vai concluir seu run por lá em algumas edições, continuando com a equipe em uma minissérie, declaradamente para aproveitar tramas e conceitos que sobraram nessa confusão toda. Liga da Justiça versus Legião dos Super-Heróis: a saga do Lanterna Dourado, ou algo assim, vai servir para usar quaisquer ideias que não conseguiu incluir nas mensais da Liga e da Legião.

Ficaram, é claro, ótimos momentos pontuais em diversas histórias do Superman. A própria revelação de sua identidade secreta, expondo ao mundo o fato de que é Clark Kent, embora tenha sido parcialmente uma jogada manjada, usado pelo próprio Bendis em Demolidor, fez muito sentido e foi bem trabalhada, afinal, Superman simboliza o que há de mais ético e correto no universo dos super-heróis, faz todo sentido que ele pare de mentir para a população da Terra, que o adora e idolatra. A antecipação da fundação dos Planetas Unidos, um conceito da Legião dos Super-Heróis que tradicionalmente só ocorreria daqui a mil anos no Universo DC, também foi uma ótima sacada, que está sendo bem explorada em outra mensal, Lanterna Verde.

Teve acertos, teve erros. Só não teve indiferença, da parte dos leitores, no começo e na metade dessa permanência de Bendis na DC. Já nesse período, digamos, final, ninguém estava mais se importando com ele ou o que vinha fazendo.

Triste ver um roteirista que poderia ter feito muito e bem melhor, terminar assim, perdido no Universo Original. Talvez com o anúncio feito por ele mesmo recentemente, haja o indicativo de que vá se encontrar, criativamente. Em seu perfil no Substack, Bendis divulgou que foi convidado a fazer parte da produção de um novo desenho da Legião dos Super-Heróis, no HBO Max. Segundo ele, tudo ainda está nos estágios mais iniciais, mas a animação terá um tom mais adulto e será uma adaptação de sua versão feita com Ryan Sook.

Boa sorte pra ele, então. E que consiga superar suas próprias falhas, vícios e a prejudicial mania de não saber dizer “não” quando é necessário. Brian Bendis precisa se reencontrar, enquanto roteirista.


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