Conta a porcaria da história, bicho

Quando a DC anunciou uma maxissérie de 12 partes do Senhor Milagre escrita por Tom King, todo mundo ficou animado. Afinal, além de contar com a excelente arte de Mitch Gerads, parecia que a editora finalmente daria alguma atenção aos personagens criados pelo Rei Jack Kirby em mais uma curta passagem pela casa no começo dos anos 1970. Kirby, a propósito, comemoraria 100 anos de nascimento naquele momento e King, para o bem ou para o mal, era o escritor mais badalado na DC, assumindo a revista do Batman no evento chamado Renascimento. Quando a primeira edição saiu o impacto foi enorme, com todo mundo falando do gibi. “Darkseid is.”

Mas aí vieram as demais edições e o negócio esfriou progressivamente. Lá pelas tantas, a história parecia confusa e sem qualquer rumo. O que diabos ele quer contar aqui? Muitos largaram para fazer o que outros tantos já pretendiam: esperar acabar para ler tudo. Eu segui firme e forte e em algumas edições eu não fazia ideia de como fomos parar ali. Por preguiça, não relia a edição anterior, sabendo que, dessa forma, estaria fadado a reler tudo novamente a cada mês.

Então, se era para fazer assim, Tom King, por que diabos lançou as revistas mensalmente? E tua história só funciona de uma vez, no encadernado (e realmente fica bem melhor assim), por que não lançar logo nesse formato?

Sabemos a resposta, não somos ingênuos. A DC Comics, tal qual qualquer editora de quadrinhos (incluindo as brasileiras), é um empresa que visa o lucro. Se eles podem ganhar dinheiro mês a mês ao longo de um ano e depois pode vender o mesmo produto, mais uma vez, em outra “embalagem” para o mesmo público (e para aqueles que resolveram esperar) e ganhar ainda mais dinheiro, por que, não? Isso nos joga num dilema. Em dois, sendo mais honesto.

O primeiro deles é que, ao mesmo tempo em que Senhor Milagre saia, Tom King escrevia OUTRA maxissérie, essa em nove partes, que não funcionou de forma alguma, de tão ruim. Fadada ao fracasso, hoje não lembramos mais de Heróis em Crise. Não se contentou com esses dois exemplos, com seu Batman num longo arco de 85 partes, e me veio com outra maxissérie em 12 partes, agora estrelada pelo Adam Strange. A minha esperança reinava de que, talvez com um autor do seu calibre, o mundo cósmico da DC voltasse à baila, já que o da Marvel continua muito bem, obrigado. Larguei na quarta edição.

Primeiro porque me soou excessivamente semelhante ao que ele fez com Scott Free e essa história eu já li. Segundo porque me senti novamente enrolado mês a mês, com edições desconexas, novos plots e nada da trama andar. Ao invés de esperar para ler tudo de uma vez, um montão no fim do ano, pensei melhor na brevidade da vida e resolvi gastar meu tempo com outros gibis.

Agora, ainda com Adam Strange rolando, ele me vem com MAIS UMA maxissérie em 12 partes, agora tendo finado Rorschach como “protagonista”. Dessa vez, não tem aquele clima do Senhor Milagre, mas acabei de ler o quinto número e a sensação é a mesma: essa história não anda. Ao menos aqui cada capítulo é muito bom, estou gostando da ambientação (calcado na ótima série televisa da HBO) e com a arte maravilhosa do Jorge Fornés. Aliás, ele sempre se cerca de ótimos desenhistas. Ponto para ele.

O segundo dilema é a tal da questão: vocês não sabem mais contar uma história em cinco partes? Ou até mesmo numa única edição de 20 páginas? Tudo agora precisa durar meses e meses ou até um ano? Aprenderam nada com o fiasco que foi Doomsday Clock? OK, a história do Geoff Johns que prometia juntar Watchmen ao universo DC sofreu bastante com os atrasos do Gary Frank, mas ele é única coisa que presta nessa maxissérie. Não venha culpar os atrasos na arte como responsável pelo fato de Doomsday Clock ter se tornado altamente irrelevante dentro de sua proposta de resolver os Novos 52 e direcionar o Renascimento. Isso foi culpa da história merda do Johns. E da sensação de que poderia ter resolvido tudo aquilo num especial de 80 páginas (sendo muito generoso). Mas essa “dificuldade” recai, também, no próximo ponto.

Menti, são três dilemas. Enquanto comprarmos isso mensalmente e depois o encadernado, eles vão lançar assim. E ficaremos à mercê de ler plots que facilmente se resolveriam com 80% a menos de edições. É por isso que valorizo demais os operários dessa indústria, que fazem mensal que não tem vergonha de ser mensal, que virará um encadernado mediante a demanda do mercado e não é pensada apenas para esse formato. Que contam boas histórias mês a mês, que não te fazem de idiota, que botam a trama para andar e você consegue acompanhar sem se sentir um personagem que perde a memória todo mês num filme de ficção científica ruim dos anos 1980. Essa tara excessiva em encadernar tudo, se não matar a própria indústria, afastará a todos – sobrando apenas preenchedores de estante.


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